O que está acontecendo com as crianças turcas? A pergunta ecoa nas redes sociais e nos jornais depois que a polícia de Istambul divulgou números alarmantes: em 2025, foram registrados 14.782 atos violentos envolvendo menores de idade — um salto de 34% em relação a 2023. Os casos incluem desde brigas escolares até assaltos com faca e agressões a professores.
O fenômeno não é restrito à Turquia, mas ganha contornos preocupantes em um país que sempre valorizou a tradição e a autoridade familiar. O governo do presidente Recep Tayyip Erdogan, de orientação conservadora, respondeu com o projeto de lei “Escola Segura”, que prevê câmeras em salas de aula e prisão para adolescentes a partir de 12 anos em casos graves. A medida, porém, enfrenta críticas até mesmo de setores da direita turca, que a consideram paliativa.
"O problema não é a falta de punição, é a falta de pais", disse o deputado Muhammet Emin Akbaşoğlu, do partido AKP, em entrevista à emissora TRT. A declaração gerou debate, mas encontra respaldo nos dados. Segundo o Ministério da Família turco, 68% dos menores infratores vêm de lares onde pelo menos um dos pais trabalha em regime integral e tem pouco contato com os filhos. A ausência de supervisão parental, combinada com o acesso irrestrito a conteúdos violentos na internet, forma uma mistura explosiva.
A linha editorial FORTIS não compactua com narrativas que culpam exclusivamente a pobreza ou o "capitalismo selvagem". Na Turquia, o desemprego juvenil está em 17%, mas a taxa de criminalidade infantil é maior nas regiões industrializadas e mais ricas, como Mármara, e não nas províncias rurais pobres do leste. O fator determinante parece ser a dissolução dos laços comunitários e a substituição da autoridade paterna pela influência de algoritmos.
O Estado turco, que historicamente gasta mal e tributa demais, falhou duplamente. Primeiro, porque o sistema educacional, centralizado e burocrático, não prepara os jovens para a vida real, mas para exames padronizados. Segundo, porque as políticas de "bem-estar infantil" do governo ampliaram programas assistenciais sem exigir contrapartidas das famílias. Um relatório do Banco Mundial de 2024 indica que a Turquia transfere anualmente 12 bilhões de liras em subsídios para famílias com crianças, mas o dinheiro muitas vezes é desviado para consumo imediato, sem impacto na qualidade da criação.
Por que isso importa para o Brasil e para a América Latina? Porque os mesmos sintomas aparecem por aqui: crianças violentas, pais ausentes, escola refém de ideologias e Estado inchado que não resolve. O liberal-conservadorismo prega o óbvio: a responsabilidade primária pela educação moral das crianças é da família, não do governo. O Estado deve garantir segurança e liberdade econômica para que os pais possam prover, e não substituí-los.
É claro que há vozes dissonantes. A sociórana Zehra Önder, da Universidade de Ancara, defende que o aumento da violência reflete a crise econômica e a desigualdade geradas pelas políticas neoliberais do governo Erdogan, que privilegiaram a construção civil e o consumo. "Cortar gastos sociais e precarizar o trabalho forçou pais a se ausentarem", declarou à revista BirGün. O argumento, porém, esbarra nos números: a violência infantil subiu mesmo durante os anos de crescimento econômico do país, entre 2021 e 2023, quando o PIB avançou 5,5% ao ano.
A verdade factual, acima de narrativas, é que a Turquia tem um problema cultural e estrutural. A tecnologia substituiu o diálogo em casa. A escola, que deveria ser complemento, tornou-se refém de disputas políticas — a reforma curricular de 2024, que introduziu disciplinas de "cidadania digital" e "ética islâmica", teve efeito nulo sobre a violência, segundo o próprio Ministério da Educação. Enquanto isso, o governo prepara um pacote de "contenção juvenil" que prevê toque de recolher para menores a partir das 22h em seis províncias.
O FORTIS NEWS não tem partido, tem princípios. E o princípio aqui é claro: o Estado mínimo que funciona é aquele que assegura liberdade e responsabilidade individual. Na Turquia, o Estado tentou substituir a família e fracassou. A saída não é mais Estado, é mais família — e menos telas.
Por Renan Filho · 2026-09-24