Um caso que choca pela violência e pela naturalização do absurdo. Na Turquia, uma mulher que estava em processo de separação judicial foi baleada pelo próprio marido. O ataque, ocorrido em meio a uma discussão sobre a partilha de bens e a guarda dos filhos, resultou na amputação de ambas as pernas da vítima. O agressor, detido em flagrante, apresentou uma defesa que causou perplexidade geral: ‘Foi por amor. Eu a amava demais e não suportava a ideia de perdê-la.’
A declaração, registrada em ata policial e reproduzida pela imprensa local, reacendeu o debate sobre a eficácia das leis de proteção à mulher na Turquia. O país, que em 2021 retirou-se da Convenção de Istambul — tratado internacional de combate à violência contra a mulher — sob o argumento de que o acordo ‘incentivava a homossexualidade’, viu os índices de feminicídio dispararem nos últimos anos. Dados oficiais do Ministério do Interior turco indicam que, em 2025, ao menos 280 mulheres foram assassinadas por parceiros ou ex-parceiros, um aumento de 12% em relação ao ano anterior.
O caso em questão, ocorrido na província de Esmirna, não é um fato isolado. Ele é sintomático de uma cultura que, em vez de punir exemplarmente o agressor, busca justificativas emocionais ou passionais para o crime. A defesa do homem, que alega ter agido sob ‘forte emoção’ e ‘incontido amor’, tenta enquadrar o ato como uma variação de homicídio privilegiado, o que reduziria significativamente a pena. Na Turquia, o crime passional ainda é tratado com leniência por parte de juízes que, não raro, aceitam atenuantes como ‘provocação da vítima’ ou ‘estado de paixão’.
A vítima, identificada como Aylin K., de 34 anos, permanece internada em estado grave. Em depoimento à polícia, ela afirmou que o marido, Mehmet K., de 41 anos, já a ameaçava há meses e que ela havia solicitado medida protetiva, mas o pedido foi negado sob a justificativa de que ‘não havia provas suficientes de risco iminente’. A falha do Estado turco em proteger uma cidadã que buscou os canais oficiais de socorro é mais um capítulo de uma tragédia anunciada.
Análise FORTIS: O caso turco é um retrato brutal de como o Estado, quando ineficiente e ideologicamente capturado, falha em sua função mais básica: proteger a vida e a propriedade dos cidadãos. A saída da Turquia da Convenção de Istambul foi um erro estratégico, mas não explica sozinha a tragédia. O problema é mais profundo: um sistema judiciário lento, que trata violência doméstica como ‘questão de família’, e uma polícia que não investiga ameaças com o rigor necessário. A defesa do agressor, ao usar o argumento do ‘amor’, revela uma chaga cultural que o Estado laico e as leis modernas ainda não conseguiram extirpar. Não se trata de falta de leis — a Turquia tem leis contra a violência doméstica. Trata-se de falta de aplicação, de fiscalização e, principalmente, de uma mudança cultural que precisa começar com punições severas e exemplares. O livre mercado, a prosperidade e a liberdade individual só são possíveis quando o Estado garante o monopólio legítimo da força e a segurança jurídica. Quando o Estado falha em proteger uma mulher que pediu ajuda, ele abre espaço para que a barbárie se justifique com apelos emocionais. É a falência do contrato social.
Contraponto: Defensores da saída da Convenção de Istambul argumentam que o tratado era usado por grupos ativistas para impor uma agenda de gênero radical, que desrespeitava valores familiares tradicionais turcos. Para eles, a proteção à mulher deve vir de políticas domésticas, não de acordos internacionais que, em sua visão, incentivam a dissolução da família. O governo turco, por sua vez, afirma ter criado centros de acolhimento e delegacias especializadas. No entanto, os números mostram que essas medidas são insuficientes. O caso de Aylin K. demonstra que, independentemente da convenção, o sistema de proteção falhou no ponto crucial: o momento da ameaça.
Por Renan Filho · 2026-09-23