Em um movimento que ecoa reformas liberalizantes em andamento na Turquia, o governo do presidente Recep Tayyip Erdoğan sinalizou a possibilidade de permitir que clubes de futebol como Beşiktaş, Fenerbahçe e Galatasarar – os três gigantes de Istambul – abram capital na Borsa İstanbul ou recebam investimento estrangeiro direto. A informação foi divulgada pelo Ministério da Juventude e Esportes em nota oficial publicada no início da semana.
A medida, ainda em fase de consulta, é apresentada como parte de um pacote mais amplo de reformas econômicas que inclui a redução do endividamento público e o estímulo à iniciativa privada. Segundo a nota ministerial, “o fortalecimento da governança corporativa e a transparência financeira são essenciais para a sustentabilidade do esporte nacional, afastando-o da dependência de subsídios estatais e empréstimos bancários com condições especiais”.
O contexto é grave. Os três clubes somam, juntos, mais de 15 bilhões de liras turcas em dívidas (cerca de 2,5 bilhões de reais, em valores atuais). A maior parte desse passivo é composta por impostos atrasados, contribuições previdenciárias não pagas e empréstimos com bancos públicos – um peso que recai indiretamente sobre o contribuinte turco. Em publicação nas redes sociais, o deputado oposicionista Müsavat Dervişoğlu (Partido İYİ) afirmou que a proposta “não passa de uma manobra para legitimar o calote dos clubes e transferir o prejuízo para o Estado e para o torcedor”.
A crítica tem fundamento, mas ignora o ponto central: o modelo atual já é insustentável. Desde 2019, a Turquia vive uma crise cambial severa – a lira perdeu mais de 70% de seu valor frente ao dólar – e a inflação oficial ultrapassou os 60% ao ano. Nesse cenário, clubes que faturam em liras mas têm dívidas dolarizadas ou indexadas à inflação veem seu passivo crescer em ritmo acelerado. A alternativa de abrir o capital ou vender participações para fundos estrangeiros – como já ocorre na Inglaterra, na Espanha e, recentemente, no Brasil – é uma saída de mercado, não de esmola estatal.
Do ponto de vista liberal-conservador, a medida é acertada. Ela reduz a ingerência do Estado sobre o esporte, obriga os clubes a adotar padrões contábeis internacionais (IFRS), dar transparência a salários de jogadores, comissões de empresários e contratos de patrocínio, e, sobretudo, impede que novas gestões irresponsáveis acumulem dívidas que, mais cedo ou mais tarde, serão socializadas. O risco de que fundos estrangeiros “controlarem” clubes históricos existe, mas a soberania nacional não se defende com protecionismo ou estatismo; defende-se com regras claras e competitividade.
Por outro lado, há um contraponto relevante. A Turquia tem um histórico de intervencionismo econômico e judicial que pode comprometer a credibilidade do novo modelo. Em 2020, o governo Erdoğan forçou a redução dos juros bancários, gerando fuga de capitais e desvalorização cambial. Investidores estrangeiros que entraram no país nos últimos anos enfrentaram dificuldades para repatriar lucros devido a controles de capital implícitos. Sem um ambiente de segurança jurídica, a abertura do capital dos clubes pode se tornar um fracasso – não por culpa do mercado, mas por falta de credibilidade do Estado.
Além disso, a proposta ainda não detalha como será tratado o passivo fiscal dos clubes. Se o governo simplesmente perdoar ou alongar essas dívidas por décadas, estará premiando a má gestão e punindo os clubes menores que se endividaram menos. Seria um erro moral e fiscal. O caminho correto seria exigir que, como condição para a abertura de capital, os clubes firmem acordos de pagamento de tributos com prazos reais e juros de mercado, sem subsídio.
Por fim, a iniciativa revela algo maior: o futebol, em países como Turquia e Brasil, sempre foi tratado como “paixão nacional” e, por isso, imune à responsabilidade fiscal. O resultado está aí: estádios superfaturados, calendário inchado, gramados ruins e torcedores pagando ingressos caros para financiar salários astronômicos de jogadores medíocres. A abertura de capital não é a salvação, mas é o primeiro passo para tratar o futebol como o que ele é: um negócio. Negócio bem gerido gera emprego, renda e entretenimento de qualidade. Negócio mal gerido vira peso morto nas costas do contribuinte.
Por Renan Filho · 2026-09-24