O governo turco está disposto a transformar a retórica de cooperação regional em entregas tangíveis. Em publicação nas redes sociais do Ministério da Energia, Bayraktar disse que 'a parceria estratégica com o Iraque será fortalecida por meio de projetos que gerem emprego e desenvolvimento para ambos os lados'. A declaração foi acompanhada de fotos da reunião com o ministro do Petróleo iraquiano, Hayan Abdel-Ghani, e outros altos funcionários.
O contexto não poderia ser mais oportuno. O Iraque vive uma crise hídrica e energética crônica, agravada por décadas de guerra, sanções e má gestão estatal. A Turquia, por sua vez, controla as cabeceiras dos rios Tigre e Eufrates, tendo construído barragens que reduzem o fluxo de água para o sul. As tensões entre os dois países sobre a partilha de água são antigas, mas Ancara agora propõe um modelo de cooperação que inclui a construção de novas hidrelétricas, oleodutos e linhas de transmissão.
Por que isso importa? O Iraque é o segundo maior produtor de petróleo da Opep, com reservas provadas de cerca de 145 bilhões de barris. No entanto, sua infraestrutura obsoleta e a dependência de receitas petrolíferas — que representam mais de 90% do orçamento federal — tornam o país extremamente vulnerável a choques externos. A parceria turca pode oferecer uma alternativa, especialmente se envolver capital privado e contratos de longo prazo com garantias jurídicas.
**Análise FORTIS**
Do ponto de vista liberal-conservador, a iniciativa de Bayraktar tem méritos claros. Projetos concretos, com cronograma e fontes de financiamento definidos, são o antídoto para as infindáveis reuniões diplomáticas que não saem do papel. A Turquia, apesar de seu governo centralizador, tem uma indústria de construção robusta e empresas privadas dispostas a investir no exterior, desde que o ambiente de negócios seja minimamente previsível.
O problema é que o Iraque é tudo menos previsível. O país ocupa a 168ª posição no ranking de facilidade de fazer negócios do Banco Mundial (2020, último dado disponível), e a corrupção endêmica faz com que contratos públicos sejam frequentemente renegociados ou cancelados sob pressão política. O Estado iraquiano gasta mal, tributa pouco e entrega quase nada — a população paga caro por eletricidade gerada por geradores a diesel enquanto o governo queima gás natural nas plataformas de petróleo.
Para que a parceria dê certo, será necessário mais do que boa vontade. A Turquia teria que exigir reformas estruturais no Iraque: independência do judiciário, tribunais comerciais especializados, garantias contra expropriação e um regime de tributação estável para investidores estrangeiros. Sem isso, os 'projetos concretos' podem se transformar em mais uma fonte de dívida e frustração.
**Contraponto**
Críticos da aproximação turco-iraquiana apontam que a Turquia, sob o governo de Recep Tayyip Erdogan, não é exatamente um paradigma de livre mercado. O Estado turco é altamente intervencionista, controla setores estratégicos via fundos soberanos e tem uma relação conturbada com o Ocidente. Além disso, a presença militar turca no norte do Iraque, combatendo o PKK, gera desconfiança entre os curdos iraquianos e o governo federal de Bagdá.
Outro ponto sensível é a água. A Turquia historicamente usa o controle dos recursos hídricos como instrumento de pressão política. Se os novos projetos incluírem barragens no território turco que afetem o fluxo para o Iraque, a 'parceria' pode rapidamente virar conflito. Dados oficiais do Ministério de Recursos Hídricos do Iraque indicam que o país já perdeu 40% da capacidade de irrigação nas últimas duas décadas devido à redução do volume dos rios.
**P: O que muda na prática com essa declaração de Bayraktar?** R: A curto prazo, pouco. A declaração é mais um gesto diplomático do que um contrato assinado. O que importa é o teor: Bayraktar sinalizou disposição de avançar com projetos específicos, como a construção de uma nova linha de transmissão elétrica entre a fronteira turca e a cidade de Mossul, e a expansão do gasoduto que leva gás turco ao norte do Iraque. Se esses projetos saírem do papel, a parceria ganhará substância.
**P: O FORTIS acredita que essa parceria pode beneficiar o Brasil de alguma forma?** R: Indiretamente, sim. O Brasil exporta carne halal, aviões da Embraer e produtos agrícolas para o Oriente Médio. Se a Turquia e o Iraque conseguirem estabilizar a região e melhorar a infraestrutura logística, as rotas de comércio podem se tornar mais eficientes. Porém, o Brasil não deve esperar grandes oportunidades imediatas — o foco deve estar em manter uma política externa baseada em interesses concretos, não em alinhamentos ideológicos automáticos.
Por Renan Filho · 2026-09-23