O empresário Tolga Akış, de 51 anos, fundador do conglomerado imobiliário e de centros comerciais Manifest, teve seu exame toxicológico tornado público pelo Ministério Público de Istambul na manhã desta quarta-feira, 15 de outubro de 2026. O resultado apontou a presença de cocaína e seus metabólitos na amostra coletada há duas semanas, quando Akış foi detido em flagrante durante uma operação da polícia turca em uma festa privada no bairro de Beşiktaş.
A divulgação ocorreu após a defesa do empresário tentar, sem sucesso, obter sigilo sobre o procedimento. O juiz responsável pelo caso negou o pedido, argumentando que a transparência é necessária “para preservar a confiança pública no sistema judiciário”. A decisão gerou reações mistas: enquanto parte da opinião pública aplaudiu a lisura, vozes ligadas ao governo Erdogan sugeriram que a exposição poderia prejudicar a imagem do empresariado nacional.
Tolga Akış é uma figura conhecida no mercado turco. Sua holding administra 14 shoppings centers em todo o país, além de empreendimentos residenciais de alto padrão. Ele também é próximo de políticos do AKP, partido no poder, e já participou de eventos ao lado do presidente Recep Tayyip Erdogan. Essa proximidade levanta suspeitas de que o tratamento dado ao caso não é o mesmo que um cidadão comum receberia.
Por que isso importa? O caso Tolga Akış revela uma contradição central na política turca de drogas. A Turquia possui uma das legislações mais duras do mundo contra o tráfico e o consumo de entorpecentes – a posse de drogas pode levar a penas de até 10 anos de prisão. No entanto, as elites econômicas parecem operar em uma bolha de impunidade. Akış foi solto após pagar fiança de 500 mil liras (cerca de R$ 80 mil), valor que para ele é irrisório, mas que para a maioria dos turcos representa anos de trabalho.
Análise FORTIS: A esquerda turca, representada pelo partido CHP, já se apressou em criticar o governo Erdogan por supostamente proteger “amigos do palácio”. Mas a crítica é oportunista. O problema não é o partido A ou B; é o Estado grande, ineficiente e seletivo que caracteriza a Turquia moderna. O mesmo governo que gasta bilhões em obras faraônicas e na repressão a dissidentes falha em aplicar a lei de forma igualitária. A tributação é alta, a burocracia é asfixiante, e o resultado é uma justiça que funciona para quem tem dinheiro para pagar bons advogados e fianças.
Do ponto de vista liberal-conservador, a verdade factual é que Akış cometeu um crime. O exame é claro. Mas a solução não está em criar mais leis, nem em aumentar o poder do Estado. Está em reduzir o aparelho estatal para que ele se concentre no essencial: segurança pública com impessoalidade. Enquanto o governo turco gastar milhões em propaganda e em perseguir opositores, casos como o de Akış continuarão a alimentar o descrédito das instituições.
Contraponto: defensores do regime apontam que a rápida divulgação do exame mostra que a justiça está funcionando. “Se fosse um caso de corrupção do governo, o resultado jamais viria a público”, argumentou o porta-voz do AKP, Ömer Çelik, em entrevista à agência Anadolu. De fato, a transparência é positiva. Mas ela não apaga o fato de que o sistema é seletivo. Pergunta-se: quantos cidadãos comuns que testam positivo para cocaína são soltos com fiança? Quantos têm acesso a advogados de primeira linha que conseguem acelerar a análise de exames? A resposta é conhecida: quase nenhum.
O desfecho jurídico do caso ainda é incerto. A promotoria pode oferecer denúncia por posse e uso de drogas, crime previsto no artigo 191 do Código Penal turco. A defesa de Akış sustenta que a substância era de uso pessoal e que o cliente está disposto a se submeter a tratamento. Enquanto isso, o grupo Manifest segue operando normalmente. As ações da holding, listadas na Bolsa de Istambul, caíram 2,3% no dia da divulgação do exame, mas se recuperaram parcialmente nesta quinta-feira.
Por Renan Filho · 2026-09-23