A terra voltou a tremer no leste da Turquia e, mais uma vez, a ciência emite um alerta que parece não ser plenamente ouvido pelos gestores públicos. Após a sequência de tremores que atingiu a província de Şanlıurfa, os sismólogos Süleyman Pampal e Naci Görür, nomes conhecidos do público turco e referências internacionais em sismologia, fizeram declarações que acenderam luzes amarelas — ou vermelhas — sobre o risco sísmico iminente na região.
Em publicação na rede social X (antigo Twitter), Naci Görür foi direto: 'A falha de Sürgü-Çardak, que já produziu o terremoto de Kahramanmaraş em 2023, continua ativa. Os recentes tremores em Şanlıurfa mostram que essa falha tem potencial de gerar um terremoto bastante grande — e isso precisa ser levado a sério'. A declaração foi corroborada por Süleyman Pampal em entrevista à agência İhlas, onde afirmou que 'a acumulação de energia sísmica em algumas falhas da região já ultrapassou níveis históricos, e o período de recorrência desses grandes eventos está se encurtando'.
O contexto é particularmente grave. Şanlıurfa, cidade histórica que remonta aos tempos bíblicos e abriga sítios arqueológicos como Göbekli Tepe, está assentada sobre uma complexa rede de falhas tectônicas, incluindo a Zona de Falha do Leste da Anatólia. O devastador terremoto de fevereiro de 2023, que matou mais de 50 mil pessoas no sul do país, não aliviou toda a tensão sísmica da região — e os científicos agora indicam que a calmaria pode ser apenas aparente.
Por que isso importa? Em primeiro lugar, pela vida humana. Mas o alerta dos especialistas também levanta uma questão estrutural incômoda para o governo turco e para qualquer administração que se pretenda responsável: o que foi feito com os bilhões de liras destinados à renovação urbana e ao reforço sísmico após 2023? Dados oficiais do Ministério do Meio Ambiente e Urbanização da Turquia indicam que, até junho de 2026, apenas 32% das edificações classificadas como de alto risco na região leste foram efetivamente demolidas ou retrofitadas. O restante permanece de pé, à espera de uma trégua que a geologia não oferece.
Análise FORTIS: O caso de Şanlıurfa ilustra perfeitamente a falha do Estado centralizador em lidar com problemas que exigem agilidade, eficiência e alocação racional de recursos. O governo turco — assim como o brasileiro e tantos outros — arrecada tributos em volumes dignos de países desenvolvidos, mas entrega infraestrutura de país subdesenvolvido. A tragédia anunciada em Şanlıurfa não é fruto da falta de aviso, mas da falta de execução. Onde estão os helicópteros de resgate que deveriam estar posicionados? Onde estão os estoques de tendas e mantimentos? Onde estão as vistorias técnicas independentes, livres de interferência política? Em vez disso, o que se vê é mais do mesmo: promessas, licitações superfaturadas e obras paralisadas.
Os geocientistas Pampal e Görür não estão fazendo política. Estão fazendo ciência. E a ciência, nesse caso, está dando um prazo para a incompetência administrativa. A verdade factual, aqui, é implacável: se um terremoto de magnitude 7,5 ou superior atingir Şanlıurfa amanhã, a quantidade de mortes será diretamente proporcional ao grau de negligência estatal acumulado nos últimos anos. Não se trata de fatalismo, mas de probabilidade calculada.
Contraponto: É justo dizer que a Turquia fez avanços significativos na regulamentação sísmica desde 1999, quando o terremoto de İzmit expôs a fragilidade do parque imobiliário turco. Novas leis de construção foram aprovadas e há um esforço de mapeamento de falhas. Entretanto, o problema persiste na execução e na fiscalização — e é exatamente aí que o Estado mínimo liberal-conservador faz mais sentido: o governo não precisa construir tudo, mas precisa garantir que a iniciativa privada e as comunidades locais tenham condições de se proteger. O que não pode é o Estado tributar pesadamente, prometer mundos e fundos, e depois entregar apenas burocracia e desculpas.
Por Renan Filho · 2026-09-24