O turco Mehmet Güran, pai da jovem Narin Güran, assassinada em agosto sob circunstâncias obscuras, decidiu pegar a estrada. Literalmente. Ele começou uma marcha a pé de sua cidade natal, Diyarbakır, até Ancara, numa caminhada de mais de 900 quilômetros. O objetivo é simples, mas profundo: pressionar as autoridades a investigarem com seriedade o crime que tirou a vida de sua filha de apenas 8 anos. A polícia turca, até agora, não apresentou suspeitos nem linhas de investigação consistentes. O caso, que deveria ser prioridade, parece ter sido engavetado.
Narin desapareceu no dia 21 de agosto de 2024, no distrito de Bağlar, em Diyarbakır, uma região marcada por tensões étnicas e pobreza. Seu corpo foi encontrado 19 dias depois, em um riacho próximo à casa da família. A autópsia apontou morte por afogamento, mas as circunstâncias levantam dúvidas: a menina tinha hematomas e marcas de violência. A família insiste em assassinato, mas as investigações emperram. “Não confio mais na polícia”, declarou Mehmet à imprensa local. “Eles tratam meu caso como um acidente, mas minha filha foi morta.” O protesto do pai ganhou apoio de ativistas de direitos humanos e da oposição política na Turquia.
Por que isso importa? O caso Narin Güran não é apenas mais uma tragédia pessoal. Ele simboliza a disfunção do sistema de justiça turco, onde a burocracia e a politização das instituições muitas vezes prevalecem sobre a busca da verdade. Sob o governo de Recep Tayyip Erdoğan, a Turquia tem visto um aumento da centralização do poder e um enfraquecimento do Judiciário independente. Em vez de priorizar a proteção dos cidadãos, o Estado parece mais preocupado em controlar a narrativa e evitar escândalos que possam desgastar a imagem oficial. A marcha de Mehmet é um ato de desespero, mas também de coragem, lembrando que, sem instituições sólidas e transparentes, a justiça se torna privilégio de poucos.
Análise FORTIS: O episódio expõe uma falha estrutural típica de Estados que sufocam a liberdade individual e a propriedade privada. Quando o governo concentra o monopólio da violência e da investigação, sem contrapesos, o cidadão comum fica refém da máquina pública. Em um sistema liberal, a segurança e a justiça poderiam ser prestadas por entidades concorrentes, com incentivos para resolver crimes rapidamente e com transparência. A marcha de Mehmet Güran é um grito por accountability — algo que um mercado livre de serviços jurídicos e de segurança, com tribunais arbitrais independentes, poderia oferecer de forma mais eficiente do que o Estado inchado e partidarizado. O governo turco, em vez de ignorar o clamor, deveria ver nesse movimento um sinal de que a população não aceitará mais a complacência oficial.
Contraponto: Críticos podem argumentar que a marcha é uma manobra midiática da oposição, que usa o sofrimento da família para atacar o governo. E que a polícia turca, sobrecarregada com milhares de casos, não pode tratar cada morte como um grande evento. De fato, a Turquia tem desafios de segurança sérios, incluindo terrorismo e conflitos regionais. Mas o Estado não pode se esconder atrás da agenda lotada. Casos de crianças são prioridade em qualquer sociedade civilizada. A demora em esclarecer a morte de Narin alimenta a desconfiança e joga lenha na fogueira da polarização política. A marcha de Mehmet é um sintoma de que, quando o Judiciário falha, o cidadão recorre à rua — o que, num Estado de Direito, deveria ser exceção, não regra.
Enquanto Mehmet caminha sob o sol escaldante da Anatólia, sua história viraliza nas redes sociais. A hashtag #NarinİçinAdalet (Justiça por Narin) já foi compartilhada milhões de vezes. Até o momento, o governo de Erdoğan não se manifestou oficialmente. O silêncio é ensurdecedor. A marcha deve durar cerca de três semanas, com previsão de chegada a Ancara no início de outubro. De lá, Mehmet pretende entregar pessoalmente uma petição ao Ministério da Justiça. Se for recebido ou ignorado, isso dirá muito sobre o estado da democracia turca.
Por Renan Filho · 2026-09-19