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Cultura

Liberdade, Igualdade, Fraternidade: Exceto para o Hijab? O debate que divide a Turquia

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-29

Enquanto o governo turco celebra os 100 anos da República sob o lema iluminista, mulheres muçulmanas enfrentam barreiras institucionais e sociais para usar o véu em espaços públicos e profissionais, reacendendo um antigo embate entre secularismo e liberdade religiosa.

**Lead**

Ancara, Turquia — O lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, herança da Revolução Francesa que iluminou a fundação da República Turca há um século, parece encontrar um limite silencioso e controverso: o hijab. Apesar de avanços legais nos últimos anos, mulheres que usam o véu islâmico continuam a enfrentar discriminação velada e obstáculos em áreas que vão da educação à vida corporativa, gerando um debate que expõe as fraturas na identidade laica do país. Enquanto a Turquia celebra sua modernidade, a pergunta ecoa em mesas de café, tribunais e redes sociais: a promessa republicana se aplica a todas as cidadãs?

**Contexto**

O hijab sempre foi um símbolo de tensão na Turquia moderna. Desde a fundação da república por Mustafa Kemal Atatürk, em 1923, o secularismo estrito foi imposto como pilar do Estado, banindo símbolos religiosos de instituições públicas. Por décadas, universidades e repartições governamentais proibiram o uso do véu, forçando milhares de mulheres a escolher entre a fé e a carreira. A situação começou a mudar em 2013, sob o governo do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), quando o então primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan reverteu a proibição nas universidades e, posteriormente, em órgãos públicos. Em 2022, uma decisão do Conselho de Estado turco ampliou o direito ao uso do hijab em todas as instituições estatais, incluindo o Judiciário e a polícia.

No entanto, a realidade prática é diferente. Pesquisas de organizações de direitos humanos indicam que, embora a lei tenha evoluído, a cultura institucional demora a mudar. Em empresas privadas, especialmente em setores como turismo, aviação e finanças, muitas mulheres relatam que usar o hijab ainda é visto como um obstáculo para promoções ou mesmo para a contratação. O setor de aviação, por exemplo, foi palco de controvérsias: em 2024, a companhia aérea Turkish Airlines foi criticada por supostamente recusar a contratação de comissárias de bordo com véu, uma alegação que a empresa nega, mas que gerou protestos de grupos islâmicos e feministas. O Exército e as forças de segurança, embora legalmente abertos ao hijab, mantêm regulamentos internos que, na prática, dificultam o uso do véu em funções operacionais.

**Análise**

O debate sobre o hijab na Turquia não é apenas sobre vestuário; é um campo de batalha simbólico sobre a alma do país. Para os secularistas, a proibição histórica representava a defesa da laicidade e da igualdade de gênero, evitando que a religião invadisse o espaço público e oprimisse as mulheres. Para os conservadores, a proibição era uma violação da liberdade religiosa e um instrumento de exclusão de mulheres muçulmanas praticantes. O resultado é um impasse: enquanto o Estado turco, sob a influência do AKP, tem promovido uma “turquificação” do Islã e uma reaproximação com a identidade religiosa, as elites urbanas e seculares veem nesse movimento uma ameaça ao legado republicano.

O impacto dessa contradição é profundo. Dados de censos e estudos acadêmicos mostram que mais de 60% das mulheres turcas usam o hijab, mas a sua presença em cargos de liderança empresarial, no Judiciário e em universidades de elite permanece desproporcionalmente baixa. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Istambul em 2025 sugeriu que mulheres com hijab têm 30% menos chances de serem chamadas para entrevistas de emprego em empresas de grande porte, em comparação com candidatas sem véu com qualificações idênticas — embora esses números dependam de autorrelato e metodologia, indicam uma tendência clara de preconceito estrutural.

**Fontes**

As informações deste artigo foram baseadas em reportagens de fontes jornalísticas verificáveis, incluindo matérias da agência Reuters, do jornal Hürriyet Daily News e da BBC Turkish, além de análises do Turkish Policy Quarterly e relatórios da Human Rights Watch sobre liberdade religiosa na Turquia entre 2024 e 2026.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.