Um relatório técnico independente obtido por engenheiros convocados pelo Ministério dos Transportes e Infraestrutura da Turquia revelou um quadro alarmante no histórico terminal de Haydarpaşa, em Istambul. Das milhares de estacas de madeira que sustentam a estrutura centenária, aproximadamente 80% estão comprometidas ou simplesmente desapareceram devido à ação de organismos marinhos e à falta de manutenção preventiva.
O dado, divulgado inicialmente pelo jornalista investigativo Fatih Altaylı em sua coluna no portal T24, contradiz declarações oficiais anteriores que minimizavam o problema. Em 2023, autoridades locais afirmaram que apenas 30% das estacas precisavam de reparos. Agora, a realidade se impõe: a Fundação Haydarpaşa, construída sobre um aterro no Bósforo, está literalmente se desfazendo por baixo dos trilhos.
Construído entre 1906 e 1908 como a porta de entrada da lendária Ferrovia de Bagdá, Haydarpaşa é mais do que uma estação de trem. É um símbolo da engenharia otomana e da conexão da Turquia com o Oriente Médio e a Europa. O terminal foi parcialmente fechado após um incêndio em 2010 e, desde então, enfrenta uma novela burocrática que mistura disputas entre ministérios, falta de verbas e projetos de revitalização que nunca saem do papel.
Por que isso importa: O colapso de Haydarpaşa não é apenas uma perda estética ou afetiva. É um retrato da ineficiência estatal. A Turquia, sob o governo de Recep Tayyip Erdoğan, investiu bilhões de dólares em megaprojetos de infraestrutura — aeroportos faraônicos, pontes, túneis e um canal paralelo ao Bósforo. Enquanto isso, um patrimônio histórico de valor inestimável apodrece por falta de gestão e de prioridade.
Análise FORTIS: O caso de Haydarpaşa expõe a falácia do “Estado forte” como sinônimo de eficiência. O Estado turco, que tributa pesadamente a população e as empresas, falha em preservar o que já construiu. A lógica do gasto público na Turquia, assim como no Brasil, é a mesma: prefere-se inaugurar obras novas com pompa e circunstância do que manter o que já existe. Manutenção não dá voto. Estaca de madeira apodrecida não aparece em comício. O resultado é que o contribuinte paga duas vezes: primeiro para construir, depois para ver o patrimônio ruir.
Contraponto: Defensores da gestão pública turca argumentam que a estação foi severamente danificada por um incêndio criminoso e que a prioridade foi dada a obras de infraestrutura de transporte mais urgentes, como o metrô de Istambul e a ponte Yavuz Sultan Selim. Também apontam que o projeto de restauro, orçado em cerca de 400 milhões de liras turcas (aproximadamente R$ 70 milhões na cotação atual), está em fase de licitação. O problema é que a licitação se arrasta desde 2019.
Por Renan Filho · 2026-09-24