A Turquia enfrenta mais um revés geopolítico no leste do Mediterrâneo. França e Grécia formalizaram, em reunião bilateral em Paris no dia 22 de setembro, o plano de construção de um cabo elétrico submarino de alta tensão que ligará o continente europeu à ilha de Chipre, passando por Creta e pelo sul da Anatólia — trecho sob reivindicação turca.
O projeto, orçado em mais de 2,5 bilhões de euros, prevê a instalação de 1.200 quilômetros de cabos a profundidades de até 3.000 metros. Segundo comunicado conjunto dos ministérios de Energia da França e da Grécia, a obra deve iniciar em meados de 2027 e estar operacional até 2032. A iniciativa já recebeu sinal verde da Comissão Europeia como parte do plano de interconexão energética continental "EuroAsia Interconnector".
A Turquia reagiu imediatamente. Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores turco no dia posterior ao anúncio, Ancara classificou o movimento como "violação da soberania turca sobre sua plataforma continental". O governo de Recep Tayyip Erdogan afirmou que não reconhece os acordos de delimitação marítima firmados entre Grécia e Chipre, e que "qualquer cabo que cruze áreas sob jurisdição turca sem autorização será tratado como provocação".
O projeto, no entanto, não é novo. A primeira versão do EuroAsia Interconnector foi proposta ainda em 2012, mas engavetada por falta de financiamento e disputas de licenciamento. O que mudou agora é o contexto energético global: a guerra na Ucrânia escancarou a dependência europeia de gás russo, e o Mediterrâneo Oriental se consolidou como nova rota estratégica para diversificação de suprimentos. O cabo elétrico permitirá que a energia gerada por usinas eólicas e solares de Chipre e de ilhas gregas chegue à Europa continental, reduzindo a necessidade de combustíveis fósseis.
O formato "franco-grego" incomoda Ancara precisamente por isso. Ao excluir a Turquia do consórcio, Paris e Atenas sinalizam que não consideram legítimas as reivindicações turcas sobre as águas ao sul da ilha de Kastelorizo, a poucos quilômetros da costa turca. Para Ancara, trata-se de uma tentativa de cercar a Turquia com uma aliança energética hostil.
Do ponto de vista do livre mercado, a questão é mais complexa do que o discurso de soberania sugere. O cabo elétrico é um investimento privado-público, com participação majoritária da francesa EDF e da grega PPC. Se o projeto é economicamente viável, cabe aos acionistas decidir. O problema é que a viabilidade depende do reconhecimento jurídico da rota. Sem um acordo de delimitação marítima entre Grécia e Turquia — que não existe desde a assinatura da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, em 1982 —, qualquer obra corre o risco de gerar conflito armado.
A Turquia, que não ratificou a UNCLOS, argumenta que a plataforma continental de Kastelorizo não pode gerar uma Zona Econômica Exclusiva de 200 milhas náuticas, por ser uma ilha minúscula e desproporcional à costa turca. Grécia e França rebatem com base no direito internacional vigente, que concede a qualquer território — ilha ou continente — o direito a ZEE. A disputa é antiga, mas agora ganha contornos práticos.
Para o Brasil, que mantém relações comerciais e militares com a Turquia e com a União Europeia, o caso serve de alerta. O leste do Mediterrâneo é uma das regiões onde a soberania nacional pode colidir com contratos internacionais de energia. A postura da França e da Grécia reforça a tese de que quem define os limites do direito do mar é o poder de fato, não o texto de um tratado.
A imprensa europeia, principalmente o jornal grego Kathimerini e o francês Le Figaro, destacou a “coragem diplomática” de Paris e Atenas ao desafiar Ancara. Já veículos alinhados ao governo turco, como o Daily Sabah, acusam a França de “neocolonialismo energético”. Fatos: o projeto está em fase de licenciamento ambiental e aguarda parecer de órgãos reguladores gregos e cipriotas — não há, até agora, qualquer decisão judicial que o impeça.
A análise da FORTIS é clara: o Estado turco, ao apostar em um discurso nacionalista e em ameaças de força, perdeu a janela de oportunidade para negociar uma solução negociada que incluísse participação em projetos energéticos. Enquanto isso, França e Grécia usam o direito internacional, o capital privado e o apoio da União Europeia para avançar sem consenso. O resultado é mais instabilidade, não menos. O livre mercado, quando ignorado por disputas de poder, gera custos para todos — inclusive para o contribuinte europeu que financiará parte da obra.
**Contraponto**: A Turquia poderia ter aderido à UNCLOS e negociado acordos bilaterais com Grécia e Chipre. Não o fez. A França e a Grécia poderiam ter incluído a Turquia como parceira no projeto, dividindo riscos e custos. Não o fizeram. O impasse é político, não técnico. Enquanto os governos preferirem o barulho das canhoneiras ao silêncio das mesas de negociação, o Mediterrâneo continuará sendo um barril de pólvora.
Por Renan Filho · 2026-09-24