Nos últimos meses, uma série de incidentes de violência dentro e nos arredores de escolas turcas acendeu um sinal de alerta entre especialistas. O que antes era tratado como casos isolados, agora se desenha como uma tendência preocupante, que mistura fatores sociais, fragilidade institucional e ausência de políticas públicas eficazes.
Profissionais da área de psicologia infantil e pedagogia têm se manifestado, tanto em entrevistas à imprensa local quanto em publicações em redes sociais, para orientar famílias sobre como detectar precocemente comportamentos que podem escalar para agressão física ou psicológica entre crianças e adolescentes.
A Associação Turca de Psicólogos Escolares (TPD, na sigla em turco) publicou recentemente em seu site um guia prático listando 12 sinais de alerta. Entre eles, destacam-se: isolamento social repentino, mudança brusca no rendimento escolar, irritabilidade constante, desinteresse por atividades antes prazerosas e desenhos ou escritas com conteúdo violento.
Mas o alerta que mais chamou a atenção veio do psiquiatra Dr. Mehmet Yavuz, em declaração à emissora TRT Haber. Ele afirmou que não se trata apenas de 'fases' ou 'rebeldia típica da idade' e que os pais precisam diferenciar com objetividade o que é normal na adolescência do que é um sinal de sofrimento psíquico grave. 'Crianças que testemunham ou sofrem violência em casa têm 70% mais chances de reproduzir esse comportamento na escola', alertou Yavuz, baseando-se em estudos do Ministério da Saúde turco.
Por que isso importa?
A Turquia, sob o governo do presidente Recep Tayyip Erdogan, tem investido pesadamente em infraestrutura educacional. No entanto, os gastos com saúde mental nas escolas continuam insuficientes. Segundo dados oficiais do Ministério da Educação Nacional (MEB), o número de psicólogos por aluno nas escolas públicas turcas é de um profissional para cada 2.500 estudantes, muito abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde.
Para o FORTIS NEWS, este é mais um caso em que o Estado, ao priorizar a construção de prédios e a propaganda política, negligencia o essencial: a formação de cidadãos equilibrados e preparados para o convívio social. Mais escolas não significam necessariamente melhor educação, se a violência interna as transforma em ambientes hostis.
Análise FORTIS
A raiz do problema não está apenas no ambiente escolar, mas na erosão dos valores familiares e na ausência de limites, algo que o discurso progressista frequentemente trata como 'repressão'. A glamorização da rebeldia sem causa, promovida em certos conteúdos culturais e digitais, contribui para que jovens confundam agressividade com força de caráter.
Por outro lado, a resposta estatal não pode ser apenas punitiva. A proposta liberal-conservadora defende que o dinheiro do contribuinte seja aplicado com eficiência: contratar mais psicólogos, treinar professores para identificar sinais de risco e, principalmente, fortalecer a autoridade da família na educação dos filhos. O Estado não pode, nem deve, substituir os pais, mas pode — e deve — criar as condições para que a escola seja um local seguro.
O economista liberal turco Mustafa Aydin, em artigo para o jornal Daily Sabah, apontou que o orçamento da educação turca cresceu 300% nos últimos dez anos, mas os indicadores de violência escolar não melhoraram na mesma proporção. 'Gastamos mal: em vez de investirmos em professores qualificados e suporte psicológico, criamos uma burocracia pesada e ineficiente', escreveu Aydin.
Contraponto
Vozes ligadas ao governo turco rebatem as críticas. A ministra da Educação, Mahinur Özdemir Göktaş, em pronunciamento ao parlamento, afirmou que o governo criou 5.000 novas vagas para psicólogos escolares em 2025 e que programas de mediação de conflitos já reduziram em 15% os casos de bullying em algumas províncias. Ela defendeu que a violência é um fenômeno social complexo, que não pode ser resolvido apenas com recursos financeiros, mas com a participação ativa das famílias.
O FORTIS NEWS reconhece o mérito parcial dessas ações, mas ressalta que, enquanto o governo continuar tratando os sintomas sem atacar as causas estruturais — como a fragilização da instituição familiar e o papel do Estado como educador onipresente em vez de subsidiário —, os relatórios continuarão a ser alarmantes.
Por Renan Filho · 2026-09-24