O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, desembarcou em Nova York nesta semana para uma rodada de encontros com investidores e líderes empresariais globais. O objetivo declarado, segundo sua assessoria, foi apresentar as oportunidades de negócios na Turquia e sinalizar uma suposta estabilidade econômica. A agenda, no entanto, ocorre em um momento delicado para o país, que enfrenta uma crise cambial severa e uma inflação anual que ultrapassou os 60%.
Erdogan, conhecido por sua visão heterodoxa da economia — que inclui a crença de que juros altos causam inflação, ao contrário do que prega a teoria econômica clássica —, tenta agora reverter a desconfiança internacional. Em publicação nas redes sociais, o presidente turco afirmou que a Turquia está "aberta a parcerias" e que o país "oferece um ambiente seguro para investimentos". A declaração contrasta com os dados oficiais: a lira turca perdeu mais de 80% de seu valor frente ao dólar nos últimos cinco anos, corroendo o poder de compra da população.
O encontro em Nova York não é um fato isolado. Ele ocorre às vésperas da Assembleia Geral da ONU, onde Erdogan também discursará. Mas, para analistas de mercado, o gesto tem um significado mais profundo: é o reconhecimento tácito de que o modelo econômico baseado em subsídios estatais, controle de preços e pressão sobre o banco central independente esgotou sua capacidade de gerar crescimento sustentável.
Por que isso importa? A Turquia é um país membro da OTAN e uma potência regional no Oriente Médio e no Cáucaso. Sua instabilidade econômica tem efeitos diretos sobre o fluxo de refugiados para a Europa, sobre a segurança energética e sobre as cadeias globais de suprimento. Se Erdogan não conseguir atrair capital estrangeiro para financiar seu déficit em conta corrente, o país pode mergulhar em uma recessão ainda mais profunda, com impactos que transcendem suas fronteiras.
Análise FORTIS: A visita de Erdogan a Nova York é a prova cabal de que o intervencionismo estatal, o nacionalismo econômico e a desconfiança nas instituições independentes são venenos para o desenvolvimento. O governo turco gastou bilhões de dólares em obras faraônicas e em programas de transferência de renda, mas esqueceu de criar as condições básicas para o setor privado florescer: segurança jurídica, moeda estável e juros reais que recompensem a poupança.
Erdogan se reúne com investidores em Nova York porque precisa do dinheiro deles. Mas nenhum investidor racional colocará capital em um país onde o chefe do Executivo demite presidentes do banco central que ousam subir a taxa de juros para combater a inflação. O livre mercado exige previsibilidade, algo que a Turquia não oferece desde que Erdogan consolidou seu poder e passou a tratar a economia como extensão de sua agenda política.
Contraponto: Defensores do governo turco argumentam que a estratégia de Erdogan priorizou o crescimento econômico e o emprego, mesmo que à custa da inflação. Apontam que a Turquia registrou crescimento do PIB em 2023 e 2024, impulsionado pelo consumo interno e pelas exportações. Também destacam que a infraestrutura do país melhorou significativamente nos últimos 20 anos, com novos aeroportos, hospitais e rodovias. O argumento tem mérito parcial, mas ignora que esse crescimento foi financiado com dívida externa e com a impressão desenfreada de moeda, gerando uma bolha artificial que agora ameaça estourar.
Dados oficiais do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que a dívida pública turca subiu de 30% do PIB em 2016 para quase 40% em 2025, enquanto o déficit em conta corrente permanece elevado. O custo de vida para o cidadão comum disparou, e o desemprego entre jovens beira os 25%. O encontro em Nova York, portanto, não é sinal de força, mas de fraqueza.
Por Renan Filho · 2026-09-23