BERLIM — A história de Elif Eralp em Berlim não é apenas um marco pessoal, é um termômetro de uma virada silenciosa que atravessa os Bálcãs e chega ao Bósforo. Em cerimônia realizada no histórico Hotel Adlon, sob o olhar atento de diplomatas, empresários e acadêmicos, a economista turca recebeu o Prêmio de Liberdade Econômica de Berlim, tornando-se a primeira cidadã da Turquia a alcançar a honraria. O prêmio, concedido anualmente pela Fundação Friedrich Naumann para a Liberdade, reconhece personalidades que promovem os princípios da economia de mercado, da propriedade privada e da limitação do poder estatal.
Eralp, professora visitante da Universidade Técnica de Istambul e diretora do Centro de Estudos de Mercados Regulados, foi homenageada por sua pesquisa sobre os custos da intervenção governamental na economia turca, especialmente no setor de construção civil e na indústria têxtil. Em publicação nas redes sociais, a fundação alemã classificou a homenageada como "uma voz corajosa contra o clientelismo estatal e a favor da competição aberta". A cerimônia contou com a presença do embaixador alemão na Turquia, que, em discurso, destacou a importância de "parcerias econômicas baseadas em regras claras e não em favores políticos".
O contexto da premiação não poderia ser mais simbólico. A Turquia enfrenta uma inflação anual que, segundo dados oficiais do Instituto de Estatística Turco, ultrapassa os 60%, enquanto economistas independentes estimam o número real em mais de 120%. A lira perdeu mais de 80% do seu valor frente ao dólar desde 2018, e o desemprego juvenil atingiu 25% em 2025, conforme dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Nesse cenário, a escolha de Eralp por uma instituição alemã envia um recado claro: a receita para a prosperidade não está em controles de capital, mas na abertura de mercados e na previsibilidade jurídica.
Para o FORTIS NEWS, o significado da premiação ultrapassa a biografia da homenageada. Representa a validação internacional de uma agenda liberal que, na Turquia, ainda é marginalizada pela narrativa nacionalista e estatista. Enquanto o governo de Recep Tayyip Erdogan insiste em políticas de juros baixos e expansão do crédito subsidiado, Eralp defende, em seus artigos publicados no jornal Dünya, que "a única âncora confiável para a lira é a produtividade, não a caneta do banco central". Em palestra recente no Fórum Econômico de Ancara, a economista citou dados do Banco Mundial que mostram que cada 10% de redução na burocracia estatal aumenta em 3% o investimento estrangeiro direto — um argumento que soa como heresia em um país onde o Estado emprega mais de 15% da força de trabalho formal.
Por que isso importa agora? Porque a Turquia se prepara para um ciclo eleitoral decisivo em 2027, e a oposição, ainda fragmentada, busca uma alternativa ao atual governo. A premiação de Eralp oferece um contraponto intelectual ao populismo econômico, tanto o de Erdogan quanto o de setores da esquerda kemalista. Se a economia turca continuar a sangrar com políticas intervencionistas, o exemplo de Berlim pode se tornar um farol para uma nova geração de formuladores de políticas que enxergam no mercado não um inimigo, mas uma ferramenta de mobilidade social.
A análise FORTIS é direta: a escolha de Eralp pela fundação alemã não é um ato de caridade intelectual, é uma constatação prática. A Alemanha, que já foi o "homem doente da Europa", hoje colhe os frutos das reformas estruturais de Schröder e da Agenda 2010, que flexibilizaram o mercado de trabalho e reduziram o peso do Estado. A Turquia, com uma população jovem e uma localização geográfica privilegiada, poderia aprender com essa experiência. Mas, para isso, precisa abandonar a tentação de controlar preços, congelar aluguéis e subsidiar setores ineficientes. O prêmio a Eralp é um lembrete incômodo de que o capitalismo não precisa de desculpas, apenas de espaço para operar.
Contudo, é preciso considerar o contraponto. Críticos da homenagem, como o economista turco Oğuz Demir, em entrevista à Rádio França Internacional, argumentam que "liberdade econômica sem proteção social é apenas uma licença para a exploração". Demir aponta que as políticas de austeridade na Europa Oriental, embora tenham atraído investimentos, também aumentaram a desigualdade. Além disso, setores da imprensa turca ligados ao governo questionam a imparcialidade da fundação alemã, acusando-a de "interferência nos assuntos internos do país" e de "promover uma agenda ocidental" em um momento em que Ancara busca autonomia estratégica. Essas críticas, embora previsíveis, não diminuem o mérito acadêmico de Eralp, mas ressaltam que o debate sobre o papel do Estado na economia é, antes de tudo, uma disputa de valores.
Em suma, a noite em Berlim não foi apenas uma celebração da liberdade econômica; foi um recado direto às elites de Ancara. Enquanto a Turquia se debate em crises cambiais e déficits fiscais, o mundo reconhece aqueles que ousam defender o óbvio: o crescimento sustentável vem da inovação, do respeito aos contratos e da redução do aparelho estatal. Elif Eralp não é apenas a primeira turca a receber esse prêmio; ela pode ser a primeira de uma geração que, esperamos, não terá medo de dizer que o rei está nu.
Por Renan Filho · 2026-09-21