O que aconteceu em Düzce, província do noroeste da Turquia, não é apenas mais uma história comovente para aquecer corações em redes sociais. É um retrato vivo de algo que o Estado moderno insiste em ignorar: a capacidade espontânea das pessoas de se organizarem e agirem pelo bem comum, sem a tutela de qualquer burocracia.
De acordo com relatos publicados em páginas locais e replicados por veículos de imprensa turcos, um grupo de cidadãos anônimos se aproximou de câmeras de segurança instaladas em uma rua movimentada da cidade, exibiu notas de lira turca e as deixou no local, de forma proposital e visível. O gesto, capturado pelas lentes, foi feito para que qualquer pessoa em situação de necessidade pudesse pegar o dinheiro.
Não há discurso político, não há pedido de reconhecimento, não há hashtag de campanha. Há apenas a materialização de um princípio que o liberalismo defende há séculos: a solidariedade voluntária é mais eficaz, mais rápida e mais humana do que qualquer programa assistencialista estatal. Enquanto governos ao redor do mundo travam debates intermináveis sobre orçamento, tributos e contrapartidas, um punhado de desconhecidos resolveu agir.
O vídeo, que circula com força em plataformas como X (antigo Twitter) e Instagram, mostra o momento exato em que os cidadãos colocam o dinheiro no chão, apontam para a câmera e se afastam. A intenção, segundo comentários de quem compartilhou, era clara: garantir que a ação fosse registrada e que a mensagem de confiança no próximo se espalhasse. Em um país que enfrenta inflação elevada e desafios econômicos, a atitude ganha contornos ainda mais simbólicos.
Por que isso importa? Porque a narrativa dominante, especialmente em países como o Brasil, tenta nos convencer de que a solução para a pobreza e a desigualdade passa, invariavelmente, pelo aumento da máquina pública. O caso de Düzce é a prova empírica do contrário: quando o cidadão é livre para agir, ele encontra formas criativas e diretas de ajudar o próximo, sem custo administrativo, sem fila, sem cadastro, sem intermediários.
A cena também carrega uma mensagem poderosa sobre a natureza humana. Em um mundo saturado de notícias sobre violência, corrupção e egoísmo, ver pessoas confiando que o dinheiro será usado por quem realmente precisa — e não por aproveitadores — é um alento. A confiança é o lubrificante da sociedade civil, e ela não pode ser decretada por lei.
Do ponto de vista liberal-conservador, o episódio reforça a tese de que a caridade privada, quando livre de amarras, supera em agilidade e dignidade os programas sociais engessados. Na Turquia, assim como no Brasil, o Estado é historicamente ineficiente na gestão de recursos públicos, tributando em excesso e entregando pouco. Enquanto isso, a população, quando mobilizada por valores como compaixão e responsabilidade, demonstra uma capacidade de autorregulação que nenhum ministério consegue replicar.
Não se trata, evidentemente, de romantizar a pobreza ou de sugerir que a filantropia substitui políticas públicas bem desenhadas. Trata-se, sim, de reconhecer que a solidariedade espontânea é um ativo social que deve ser incentivado, não sufocado. Quando o Estado assume o monopólio da ajuda ao próximo, ele desestimula exatamente esse tipo de iniciativa, criando uma dependência que é tão danosa economicamente quanto moralmente.
O gesto em Düzce, portanto, é um convite à reflexão. Se um grupo de anônimos pode, com um punhado de notas e uma câmera, gerar um impacto positivo e inspirar milhares de pessoas, o que não poderiam fazer se houvesse menos impostos a pagar e mais liberdade para agir? A resposta é desconfortável para aqueles que defendem o crescimento do Estado a cada crise: muito mais.
Claro, é preciso cautela. O vídeo pode ter sido encenado, e não há como confirmar, a partir das imagens, se o dinheiro foi de fato recolhido por alguém necessitado. Mas, mesmo que se trate de uma encenação, a mensagem permanece válida: a ideia de que pessoas comuns podem e devem ajudar umas às outras, sem esperar pelo Estado, é um valor que precisa ser celebrado. A verdade factual, aqui, é o registro do gesto; a interpretação sobre seu significado é livre.
O episódio também nos lembra que a Turquia, sob a liderança de Recep Tayyip Erdogan, tem uma relação complexa com o liberalismo, com avanços econômicos intercalados por autoritarismo crescente. Mas a sociedade civil turca, como demonstra o caso, ainda preserva espaços de iniciativa e generosidade que independem do governo. É uma lição para o Brasil, onde o debate público frequentemente reduz o cidadão a um mero espectador das políticas estatais.
FORTIS conclui: a humanidade não morreu, mas morre um pouco a cada dia em que se acredita que o Estado é o único caminho para resolver os problemas sociais. O exemplo de Düzce é um antídoto contra essa ideia. Que ele sirva de inspiração não apenas para gestos de caridade, mas para uma revisão profunda do papel do Estado em nossas vidas.
Contraponto: críticos podem argumentar que ações individuais como essa não resolvem problemas estruturais, como a pobreza crônica ou a falta de acesso a serviços públicos. A objeção é válida, mas incompleta. Nenhum liberal sério defende que a filantropia substitua políticas públicas essenciais, como segurança e justiça. O ponto é que, onde o Estado falha, a sociedade não precisa esperar de braços cruzados. A caridade privada é complementar, não concorrente — e, muitas vezes, mais humana.
Por Renan Filho · 2026-09-23