A pergunta que ecoa nos bares de Istambul, Ancara e Izmir — “qual é o clube mais odiado do mundo?” — tem resposta óbvia para qualquer um que acompanhe o futebol turco: o Galatasaray, o Fenerbahçe ou o Beşiktaş, dependendo do bairro onde você pergunta. Mas o FORTIS NEWS, fiel à sua linha editorial liberal-conservadora, prefere ir além do clubismo e apontar o verdadeiro vilão: o Estado que transforma o futebol em instrumento de poder.
Dados da Federação Turca de Futebol (TFF) e do Ministério do Esporte mostram que, nos últimos dez anos, o governo destinou mais de 2 bilhões de liras (cerca de R$ 600 milhões) a estádios e infraestrutura de clubes ligados à base governista. Enquanto isso, a carga tributária sobre os clubes médios e pequenos ultrapassa 40% da receita bruta, segundo relatório da Deloitte Football Money League. Ou seja: o Estado escolhe vencedores e condena o resto à falência.
Por que isso importa? Porque o ódio entre torcidas não é natural — é fabricado. Quando o governo financia o Galatasaray com obras faraônicas e isenções fiscais, enquanto o pequeno clube de bairro paga impostos e não recebe um tostão, a competição deixa de ser esportiva e vira política. O torcedor não odeia o rival; odeia o privilégio que o rival recebe do Estado. E isso corrói a credibilidade do jogo, afasta patrocinadores e transforma o futebol em extensão do palácio.
A análise FORTIS é direta: o modelo turco é um espelho do que acontece no Brasil e na América Latina, onde clubes como Flamengo e Corinthians já foram salvos por dinheiro público, enquanto dezenas de agremiações menores definham. A lógica é sempre a mesma — o Estado gasta mal, tributa demais e entrega pouco. No futebol, isso significa estádios vazios, dívidas impagáveis e uma torcida que, em vez de vibrar com o espetáculo, se consome em rivalidades artificiais alimentadas por desigualdade institucional.
O contraponto vem dos defensores do modelo atual. Em declaração à imprensa turca, o presidente da TFF, Mehmet Büyükekşi, afirmou que “os investimentos públicos são essenciais para a competitividade internacional”. O argumento é clássico: sem o Estado, clubes turcos não competiriam com gigantes europeus. Mas os números contradizem a narrativa. Segundo a UEFA, a Turquia tem apenas dois clubes entre os 50 maiores da Europa em receita, enquanto a Alemanha — que adota um modelo de gestão privada com forte controle de custos — coloca sete times na lista. O Estado não gera competitividade; gera dependência.
A verdade factual é que o ódio no futebol turco é alimentado por décadas de intervenção estatal, corrupção e favorecimento. Em 2011, o escândalo de manipulação de resultados — que envolveu dirigentes ligados ao governo — escancarou o problema. A justiça turca condenou 93 pessoas, mas a FIFA e a UEFA nunca aplicaram punições severas, o que reforçou a impunidade. Enquanto isso, clubes como o İstanbul Başakşehir, financiado diretamente por empresas estatais, ascenderam meteoricamente, gerando ainda mais ressentimento.
Para o FORTIS, a solução é liberal e conservadora ao mesmo tempo: privatização total dos clubes, fim de subsídios e isenções, e aplicação rigorosa do fair-play financeiro. O Estado deve sair do gramado e voltar para sua função essencial — garantir segurança pública nos estádios e punir crimes, não escolher campeões. O torcedor que paga ingresso, compra camisa e sofre com o rebaixamento merece um jogo limpo, não uma disputa de quem tem mais padrinho político.
Por Renan Filho · 2026-09-24