No dia 6 de fevereiro de 2023, um terremoto de magnitude 7,8 devastou o sul da Turquia e o norte da Síria, matando mais de 50 mil pessoas e deixando milhões desabrigados. Entre os sobreviventes estava Hasan, um adolescente que perdeu os pais e três irmãos sob os escombros de Kahramanmaraş. Sem casa, sem família e sem recursos, ele passou a viver em um contêiner metálico doado por uma ONG privada.
Dois anos e meio depois, Hasan foi aprovado no vestibular da Faculdade de Medicina da Universidade de Ancara, uma das mais concorridas do país. A história, amplamente repercutida pela imprensa turca — com destaque para o jornal Hürriyet e a agência Anadolu —, tornou-se símbolo de superação. Mas o que realmente importa para o leitor do FORTIS NEWS não é apenas a emoção: é o que essa trajetória revela sobre o papel do Estado versus a capacidade individual.
O governo turco, sob a liderança de Recep Tayyip Erdoğan, prometeu reconstruir todas as áreas afetadas em um ano. Passados mais de dois anos, milhares de famílias ainda vivem em contêineres ou barracas. De acordo com relatório do Tribunal de Contas turco divulgado em março de 2025, apenas 38% das verbas destinadas à reconstrução foram efetivamente aplicadas, com atrasos atribuídos a burocracia, corrupção e falta de coordenação entre ministérios.
Hasan, porém, não esperou pelo Estado. Ainda no contêiner, ele conseguiu acesso a um tablet doado por uma campanha de crowdfunding internacional. Com ele, assistiu a aulas online gratuitas oferecidas por plataformas privadas e por professores voluntários. Também recebeu bolsa de estudos parcial de uma fundação empresarial turca, a Vehbi Koç Vakfı, que cobre parte de suas despesas. Seu caso foi documentado pelo site Turkish Minute, que destacou que ele nunca recebeu qualquer auxílio direto do governo além da cesta básica emergencial nos primeiros meses.
A história de Hasan importa porque desmonta a narrativa de que a mobilidade social depende exclusivamente de políticas públicas robustas. O Estado turco gastou mal, tributou excessivamente (a carga tributária na Turquia chega a 40% do PIB) e entregou pouco. Enquanto isso, a combinação de esforço pessoal, solidariedade voluntária e mercado educacional privado produziu um resultado que nenhum programa governamental conseguiu replicar em escala.
A análise FORTIS é direta: o sucesso de Hasan não é um acaso, é a prova de que o mérito individual, quando combinado com liberdade econômica e redes de apoio não estatais, supera as piores adversidades. O Estado, ao concentrar recursos e decisões, tende a engessar oportunidades. Na Turquia, o governo Erdoğan usou a tragédia para expandir seu controle sobre a economia, criando fundos de reconstrução geridos por aliados políticos. O resultado foi ineficiência e favorecimento.
Há quem critique essa leitura, argumentando que o Estado deveria ter fornecido moradia digna e educação gratuita de qualidade para todos. O contraponto é factual: mesmo com o enorme gasto público — estimado em US$ 15 bilhões em reconstrução —, a maioria dos desabrigados continua em condições precárias. A diferença entre Hasan e outros milhares de jovens na mesma situação não foi o Estado, mas sim a sua determinação e a existência de canais privados de apoio. Se o governo tivesse sido mais eficiente, talvez mais histórias como a dele existissem. Mas a verdade é que a máquina estatal falhou, e ele venceu apesar dela.
Para o Brasil, a lição é clara: políticas de assistencialismo que criam dependência não geram os mesmos resultados que um ambiente de liberdade econômica, onde o mérito é recompensado e a solidariedade voluntária floresce. O exemplo de Hasan deveria inspirar reformas que reduzam o tamanho do Estado, simplifiquem a burocracia e incentivem doações privadas com isenções fiscais reais.
Por Renan Filho · 2026-09-24