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Politica

Por que o número de votos para vencer muda de uma eleição para outra no Brasil?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-25

Diferentemente do que muitos imaginam, o total de votos necessários para eleger um presidente, governador ou prefeito no Brasil não é fixo. Entenda como o sistema eleitoral, o comparecimento e as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) influenciam esse cálculo a cada pleito.

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A cada eleição no Brasil, eleitores e analistas políticos se deparam com uma aparente contradição: o número de votos necessários para eleger um candidato varia significativamente de um pleito para outro. Em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente com pouco mais de 60 milhões de votos no segundo turno. Quatro anos antes, Jair Bolsonaro venceu com aproximadamente 57,8 milhões. Já em 2014, Dilma Rousseff obteve a vitória com cerca de 54,5 milhões de votos. A diferença não se deve apenas à popularidade dos candidatos, mas a um conjunto de fatores técnicos e demográficos que alteram o chamado “colégio eleitoral” a cada ciclo.

**Contexto**

O Brasil adota, para cargos do Executivo (presidente, governador e prefeito de cidades com mais de 200 mil eleitores), o sistema de dois turnos. Para vencer no primeiro turno, o candidato precisa obter a maioria absoluta dos votos válidos — ou seja, mais da metade dos votos, excluídos os brancos e nulos. No segundo turno, vence quem tiver a maioria simples dos votos válidos. A grande variável, portanto, não é a regra em si, mas o total de votos válidos, que muda a cada eleição.

O primeiro fator que explica essa variação é o crescimento do eleitorado brasileiro. Em 2014, o país tinha cerca de 142,8 milhões de eleitores aptos a votar. Em 2018, esse número subiu para 147,3 milhões. Em 2022, chegou a 156,4 milhões. Quanto mais eleitores, maior o universo de votos possíveis. No entanto, o crescimento não é linear: o comparecimento às urnas também oscila. Em 2014, a abstenção foi de 19,4% no primeiro turno. Em 2018, subiu para 20,3%. Em 2022, atingiu 20,9% no primeiro turno e 20,6% no segundo. Isso significa que, mesmo com mais eleitores, o número de votos efetivamente computados pode crescer menos do que o esperado.

Outro elemento crucial é a quantidade de votos brancos e nulos. Em 2014, o primeiro turno registrou 4,6% de votos brancos e nulos somados. Em 2018, esse percentual caiu para 3,7%. Em 2022, subiu novamente para 4,2%. Como a regra da maioria absoluta considera apenas os votos válidos (excluindo brancos e nulos), uma eleição com mais votos inválidos reduz o total de votos que um candidato precisa para atingir a maioria. Por exemplo, se há 100 milhões de votos totais, mas 10 milhões são brancos ou nulos, a maioria absoluta é calculada sobre 90 milhões — ou seja, 45 milhões + 1 voto. Se os votos inválidos fossem apenas 5 milhões, a maioria subiria para 47,5 milhões + 1.

**Análise**

A variação no número de votos necessários para vencer tem implicações diretas na estratégia das campanhas. Partidos e candidatos monitoram de perto as pesquisas de intenção de voto não apenas para saber quem está na frente, mas para estimar o “teto” de votos válidos que podem alcançar. Em eleições com alta abstenção, como as de 2022, o custo de cada voto se torna mais alto, pois o eleitor que comparece tem peso proporcionalmente maior. Isso explica por que campanhas investem pesado em transporte e mobilização no dia da eleição, especialmente em regiões onde o eleitorado é mais disperso.

Além disso, a mudança no perfil demográfico do eleitorado influencia o resultado. O Brasil tem envelhecido, e o voto é obrigatório para pessoas entre 18 e 70 anos, mas facultativo para jovens de 16 e 17 anos, idosos acima de 70 e analfabetos. Em 2022, o TSE registrou um aumento significativo no número de eleitores jovens (16 e 17 anos), que passaram de 1,4 milhão em 2018 para 2,1 milhões. Esse grupo tende a ter maior abstenção, mas quando comparece, pode alterar o equilíbrio de forças. Por outro lado, o eleitorado acima de 70 anos, que também pode optar por não votar, cresceu de 14,5 milhões em 2018 para 16,8 milhões em 2022.

Outro fator que muitos ignoram é a influência das regras de domicílio eleitoral e transferência de votos. A cada eleição, milhões de eleitores mudam de cidade ou estado e precisam regularizar o título. Em 2022, o TSE processou mais de 3 milhões de transferências de domicílio eleitoral. Isso redistribui o peso político entre regiões e pode fazer com que um candidato precise de mais ou menos votos em determinada localidade para vencer no primeiro turno, já que a maioria absoluta é calculada nacionalmente, mas o desempenho regional impacta a viabilidade de uma vitória antecipada.

**Fontes**

As informações sobre o eleitorado, comparecimento e votos válidos foram obtidas a partir dos dados oficiais divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as eleições de 2014, 2018 e 2022. Os números de abstenção e votos brancos/nulos constam nos relatórios estatísticos do TSE, disponíveis no portal oficial (www.tse.jus.br). As análises sobre o impacto demográfico e estratégico baseiam-se em estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e do Centro de Política e Economia do Setor Público (FGV/CEESP), além de reportagens do jornal Folha de S.Paulo e do portal G1, que acompanharam a evolução do eleitorado nas últimas décadas.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.