**Lead**
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2022 representou um ponto de inflexão no cenário político da América Latina, freando o avanço de lideranças de direita que vinham ganhando espaço em diversos países. No entanto, o resultado apertado — com margem inferior a dois pontos percentuais — revelou um Brasil profundamente dividido, fenômeno que cientistas políticos analisam como um reflexo de tensões estruturais e de uma polarização que transcende as disputas eleitorais. A conjuntura coloca desafios inéditos para a governabilidade e para a coesão social, temas centrais nos estudos contemporâneos de ciência política.
**Contexto**
A eleição de 2022 foi a mais polarizada desde a redemocratização. Lula, do Partido dos Trabalhadores, venceu o então presidente Jair Bolsonaro, do Partido Liberal, por uma diferença de cerca de 1,8% dos votos válidos no segundo turno. O resultado consolidou uma divisão geográfica e ideológica: Lula teve ampla vantagem no Nordeste e em centros urbanos, enquanto Bolsonaro dominou o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste. Essa clivagem não é nova, mas se aprofundou nos últimos anos, alimentada por discursos antagônicos sobre economia, costumes e o papel do Estado.
No contexto latino-americano, a vitória de Lula ocorreu em meio a uma onda de ascensão da direita. Em 2021, o Chile elegeu Gabriel Boric, de esquerda, mas em 2022 a direita ganhou força em países como Colômbia (com a eleição de Gustavo Petro, também de esquerda, mas com forte oposição conservadora) e Argentina (onde o peronismo perdeu espaço para a coalizão de centro-direita Juntos pela Mudança). A vitória de Lula, portanto, não reverteu completamente a tendência regional, mas a conteve, impedindo que o Brasil — a maior economia da região — se alinhasse ao bloco conservador que inclui governos como o de Nayib Bukele em El Salvador e o de Javier Milei na Argentina (eleito em 2023).
**Análise**
Para a ciência política, o cenário brasileiro oferece um laboratório sobre os efeitos da polarização afetiva — quando a identificação partidária se torna uma questão de identidade pessoal, dificultando o diálogo e a cooperação. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e de universidades como a USP e a Unicamp indicam que a desconfiança entre eleitores de Lula e Bolsonaro atingiu níveis históricos, com impactos diretos na capacidade do governo de aprovar reformas e de manter a estabilidade institucional. A divisão também se reflete em temas como a política ambiental, a reforma tributária e o combate à desinformação.
Outro ponto de análise é o efeito da vitória de Lula sobre as forças de direita na América Latina. Embora tenha interrompido o avanço imediato, a direita brasileira não desapareceu. O bolsonarismo permanece como movimento organizado, com forte presença no Congresso e nas redes sociais. Cientistas políticos como Sergio Abranches e Maria do Socorro Sousa Braga argumentam que a direita latino-americana se adaptou, combinando discursos de ordem, segurança e conservadorismo moral com críticas ao establishment. No Brasil, essa adaptação se manifesta na atuação de governadores e parlamentares de oposição, que mantêm alta popularidade em suas bases.
A manutenção da divisão tem implicações diretas para a governabilidade. O governo Lula precisa negociar constantemente com um Congresso fragmentado, onde a centro-direita e a direita detêm maioria em várias comissões. Isso limita a margem para avanços em pautas progressistas, como a reforma agrária e os direitos indígenas. Ao mesmo tempo, a polarização dificulta a construção de consensos mínimos sobre políticas de Estado, como a reforma tributária e o novo arcabouço fiscal, que exigem amplo apoio parlamentar.
**Fontes**
As informações e análises apresentadas baseiam-se em estudos e artigos de instituições como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), e publicações de cientistas políticos como Sergio Abranches (colunista do UOL) e Maria do Socorro Sousa Braga (UFSCar). Dados eleitorais oficiais foram consultados junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Também foram considerados relatórios do Wilson Center e do Latin American Public Opinion Project (LAPOP) sobre tendências políticas na América Latina.
Por Renan Filho · 2026-10-26