O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Recife na última terça-feira para uma agenda de inaugurações e anúncios de investimentos federais. O roteiro incluía a entrega de unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Vida e a visita a obras de duplicação da BR-232. Contudo, nos corredores do Palácio do Campo das Princesas, o que se discutia nos intervalos era o futuro do apoio do centrão ao governo em uma eventual disputa de segundo turno.
O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lyra (PP-PE), que é a principal liderança política de Pernambuco no centrão, não compareceu a nenhum dos eventos públicos com Lula. A ausência foi justificada pela assessoria como “compromissos de agenda em Brasília”. No entanto, fontes do PP ouvidas pelo FORTIS NEWS afirmam que Lyra estaria avaliando o custo eleitoral de se associar à imagem do presidente no estado onde nasceu o ex-presidente Jair Bolsonaro, que teve 58% dos votos válidos em Pernambuco em 2022.
Por que isso importa. Lyra comanda o PP, partido que hoje integra oficialmente a base do governo Lula no Congresso, mas que historicamente flerta com a direita. Em 2022, o PP apoiou a reeleição de Bolsonaro no primeiro turno. Agora, com a aproximação de 2026, a legenda enfrenta uma encruzilhada. Se Lula for para o segundo turno contra um candidato de direita — como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ou o próprio Bolsonaro, se elegível —, Lyra terá que decidir entre manter o apoio ao atual presidente ou migrar para o campo adversário.
A sinalização mais clara veio de dentro do partido. Na última semana, o líder do PP na Câmara, deputado Dr. Luizinho (RJ), declarou à Rádio CBN que “o PP nunca foi partido de um homem só” e que “a legenda estará com quem oferecer as melhores condições para o Brasil”. A frase foi interpretada como uma abertura de flanco para uma eventual negociação com a oposição. Já o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro de Bolsonaro, tem feito críticas constantes à política econômica do governo, em especial ao aumento da carga tributária e ao crescimento do gasto público.
Análise FORTIS. Do ponto de vista liberal-conservador, a postura de Lyra é um termômetro do pragmatismo fisiológico que domina o centrão. O que está em jogo não é projeto de país, mas acesso ao Orçamento. Lula tenta costurar o apoio prometendo emendas e ministérios — o PP já comanda os Ministérios das Cidades e da Saúde. Em contrapartida, a direita oferece a Lyra a chance de liderar a Câmara em um governo conservador, com menos intervencionismo e mais espaço para o mercado.
O governo Lula, no entanto, não está entregando o que prometeu. Os dados do Banco Central mostram que a carga tributária deve fechar 2025 em 35,2% do PIB, a maior desde 2022. A dívida bruta do governo geral ultrapassou 80% do PIB em agosto, segundo o Tesouro Nacional. O gasto primário cresceu 8% acima da inflação no primeiro semestre, enquanto o investimento público caiu 3% no mesmo período. Para um partido que busca se manter no poder a todo custo, esse cenário fragiliza a narrativa de que Lula é o “pai dos pobres” que entrega resultados.
Contraponto. A assessoria de Arthur Lyra afirma que “o presidente da Câmara mantém diálogo republicano com todos os poderes e partidos” e que “não há qualquer decisão sobre apoio a segundo turno”. Já o Planalto, por meio do ministro das Comunicações, Paulo Pimenta, disse que “a base está unida” e que “as especulações são próprias do período pré-eleitoral”. A leitura da equipe de Lula é de que Lyra não tem incentivo para romper agora, pois depende do governo para aprovar pautas de seu interesse na Câmara, como a reforma tributária e o arcabouço fiscal.
O segundo turno, contudo, é um jogo diferente. Em 2022, Lula foi reeleito com 50,9% dos votos, derrotando Bolsonaro por uma margem apertada. Sem Bolsonaro na urna, a direita pode unificar o voto conservador em torno de Tarcísio ou de outro nome do campo liberal. Lyra sabe disso. Em conversas reservadas com correligionários, ele teria dito que “não vai pular em navio furado”, segundo relato de um deputado do PP ao FORTIS NEWS.
Com a aproximação das convenções partidárias em maio de 2026, a tendência é que o centrão mantenha a ambiguidade o máximo possível, barganhando cargos e emendas. A visita de Lula a Pernambuco, terra de Lyra, expôs justamente essa fragilidade: o governo precisa do apoio do PP, mas o PP está de olho na alternância de poder que pode render mais vantagens.
Por Renan Filho · 2026-09-24