**Lead**
Pesquisa recente do instituto Gerp revela que 43% dos eleitores brasileiros consideram a violência o maior problema do país. O índice coloca a segurança pública à frente de outras preocupações históricas, como desemprego, inflação e acesso à saúde. O levantamento, realizado em todas as regiões do Brasil, ouviu eleitores de diferentes faixas etárias e níveis de escolaridade, consolidando a percepção de que o medo da criminalidade se tornou o principal motor do descontentamento popular.
**Contexto**
O Brasil enfrenta há décadas uma epidemia de violência que atinge principalmente as periferias dos grandes centros urbanos, mas que também se expande para cidades médias e áreas rurais. Dados oficiais do Sistema de Informação sobre Mortalidade mostram que o país registra mais de 40 mil homicídios por ano, número que, embora tenha caído em relação ao pico de 2017, ainda é um dos mais altos do mundo. A letalidade policial, os roubos de carga, os assaltos a bancos e a atuação de facções criminosas alimentam um clima de insegurança que atinge todas as classes sociais.
A pesquisa Gerp, que ouviu eleitores nos 26 estados e no Distrito Federal, revela que a violência não é apenas um problema objetivo, mas sobretudo subjetivo: a sensação de insegurança é disseminada mesmo em áreas onde os índices de criminalidade são mais baixos. Para os entrevistados, a falta de policiamento ostensivo, a impunidade e a saturação do sistema prisional são apontadas como causas centrais do agravamento da crise de segurança.
Historicamente, pesquisas de opinião como as do Datafolha e do Ibope costumavam listar saúde e desemprego como prioridades máximas do eleitor brasileiro. Nos últimos anos, porém, a violência ganhou espaço e passou a disputar o topo das preocupações. A pandemia de coronavírus e a crise econômica subsequente fizeram com que a saúde momentaneamente retornasse ao primeiro plano, mas o ano de 2026 marca uma inflexão: a segurança pública volta a dominar as conversas de rua e as pautas dos debates políticos.
Especialistas em segurança pública apontam que a percepção de violência é influenciada tanto pela criminalidade real quanto pela cobertura midiática e pelo discurso político. A exposição constante a notícias sobre chacinas, roubos e confrontos armados cria um ambiente de medo que, em muitos casos, supera a realidade estatística. Por outro lado, a atuação de facções como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho se expandiu para o Norte e Nordeste, aumentando a sensação de que o crime organizado controla territórios inteiros.
**Análise**
O resultado da pesquisa Gerp tem impacto direto sobre o cenário eleitoral brasileiro, que se prepara para as eleições gerais de 2026. Candidatos a todos os cargos, da Presidência às assembleias legislativas, são forçados a colocar a segurança pública no centro de suas plataformas. Propostas como endurecimento de penas, maior investimento em inteligência policial, reforma do sistema prisional e integração das forças de segurança estaduais e federais ganham destaque. A violência, que antes era tratada como um tema local ou de responsabilidade exclusiva dos governadores, tornou-se questão de debate nacional.
A persistência da violência como principal problema para quase metade do eleitorado indica que as políticas públicas implementadas nos últimos anos não conseguiram atender às expectativas da população. Programas como o SUSP e as UPPs, embora tenham tido efeitos pontuais, não lograram reduzir estruturalmente a criminalidade. A pesquisa também sugere que o discurso de 'lei e ordem' tende a render dividendos políticos, mas sem propostas concretas e viáveis, corre o risco de se tornar mero marketing eleitoral.
A longo prazo, a superação da crise de segurança exige investimentos em educação, geração de emprego, urbanização e fortalecimento das instituições de justiça. Enquanto a violência dominar a pauta, o desenvolvimento econômico e social ficarão em segundo plano, comprometendo o futuro do país. A pesquisa Gerp é um alerta de que o Brasil precisa de uma estratégia integrada e de longo prazo, que vá além de medidas de curto prazo e que envolva todos os níveis de governo e a sociedade civil.
**Fontes**
Pesquisa Gerp – Levantamento nacional de opinião pública sobre os principais problemas do Brasil, realizado em outubro de 2026. Dados e metodologia disponíveis no site do instituto.
Por Renan Filho · 2026-10-16