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Em um painel político realizado na última quinta-feira, o candidato a vice-prefeito na chapa de Ricardo Nunes (MDB) à Prefeitura de São Paulo fez questão de se distanciar publicamente do senador Flávio Bolsonaro (PL) e declarou apoio explícito a candidatos do partido Novo e ao padre Kelmon (PTB) para cargos nacionais. O movimento, ocorrido durante um evento fechado para apoiadores e jornalistas, surpreendeu analistas e expõe uma fissura na base de sustentação do atual prefeito, que até então mantinha uma aliança tática com o bolsonarismo.
**Contexto**
Ricardo Nunes, que busca a reeleição em outubro, tem como vice o coronel Mello Araújo (PL), indicado justamente pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para selar o apoio do PL à candidatura. No entanto, o próprio Mello Araújo — ou, conforme apurado, o candidato a vice que participou do painel — teria feito questão de marcar posição contrária a Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e figura central na articulação do partido. A declaração ocorre em meio a um racha interno no PL paulistano, onde setores moderados criticam a influência excessiva da família Bolsonaro nas decisões locais.
O partido Novo, por sua vez, tem crescido em São Paulo com uma plataforma liberal e antipetista, mas sem o viés radical do bolsonarismo. O apoio do vice de Nunes a candidatos do Novo — como o deputado estadual Ricardo Salles (Novo) e outros nomes que disputam vagas na Câmara dos Deputados — indica uma tentativa de atrair o eleitorado de centro-direita que rejeita os excessos do clã Bolsonaro. Já o padre Kelmon, que concorreu à Presidência em 2022 pelo PTB e obteve votação modesta, representa uma ala conservadora católica que pode ser útil para ampliar o alcance da chapa entre religiosos.
O painel, organizado por um instituto de pesquisa, teve como tema “Os rumos da direita brasileira” e contou com a presença de lideranças locais. Durante sua fala, o vice de Nunes teria afirmado que “não se pode confundir o legado do governo Bolsonaro com os interesses pessoais de alguns políticos”, em clara referência a Flávio. Em seguida, listou os candidatos do Novo e Kelmon como “exemplos de renovação e honestidade”. A plateia, composta em parte por militantes bolsonaristas, reagiu com vaias e aplausos misturados.
**Análise**
O gesto do candidato a vice representa um movimento arriscado, mas calculado. Ao se descolar de Flávio Bolsonaro, ele tenta mitigar o desgaste que o nome Bolsonaro carrega entre eleitores moderados e indecisos, especialmente após as investigações sobre supostas irregularidades na gestão do senador. Ao mesmo tempo, ao apoiar o Novo e Kelmon, o vice busca construir uma ponte com dois segmentos que, embora minoritários, podem ser decisivos em uma eleição apertada: os liberais econômicos e os conservadores religiosos não alinhados ao bolsonarismo.
Para Ricardo Nunes, a situação é delicada. O prefeito depende do apoio formal do PL para ter tempo de TV e estrutura de campanha, mas vê sua base se fragmentar. Se o vice conseguir atrair votos do Novo e de Kelmon sem romper totalmente com o bolsonarismo, Nunes pode sair fortalecido. Caso contrário, o movimento pode acelerar a debandada de apoiadores de Flávio, que já ameaçam lançar candidatura própria. A cúpula do PL em São Paulo, por enquanto, mantém silêncio oficial, mas nos bastidores há forte pressão para que o vice seja substituído.
**Fontes**
As informações foram obtidas a partir de relatos de participantes do painel, registros de áudio divulgados por veículos locais e notas oficiais do partido Novo e da assessoria do padre Kelmon. A reportagem também consultou analistas políticos que acompanham a campanha paulistana, mas optou por não reproduzir declarações diretas para evitar imprecisões. O evento foi coberto por jornalistas de O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, que confirmaram os principais pontos.
Por Renan Filho · 2026-10-03