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O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello (PSD), surpreendeu o cenário político ao se distanciar publicamente do senador Flávio Bolsonaro (PL) e iniciar uma agenda de campanha para candidatos do Partido Novo e para o padre Kelmon (PTB), que disputa uma vaga na Câmara dos Deputados. A movimentação, registrada nos últimos dias, sinaliza uma reconfiguração de alianças no estado e coloca em xeque a unidade da base bolsonarista na capital paulista.
**Contexto**
Ricardo Mello, vice na chapa do prefeito Ricardo Nunes (MDB), sempre foi visto como um nome de perfil moderado dentro do espectro da centro-direita. Nos últimos meses, porém, sua relação com o grupo político de Flávio Bolsonaro — filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e figura central do PL em São Paulo — esfriou consideravelmente. A ruptura tornou-se evidente quando Mello passou a articular encontros com lideranças do Novo, partido que historicamente faz oposição ao bolsonarismo em temas como reforma tributária e política ambiental.
Paralelamente, o vice-prefeito também declarou apoio ao padre Kelmon, candidato a deputado federal pelo PTB. Kelmon ganhou notoriedade nacional ao disputar a Presidência da República em 2022, quando obteve votação modesta, mas manteve forte atuação em pautas conservadoras. A aproximação com Kelmon, no entanto, é vista como uma tentativa de Mello de ampliar sua base eleitoral entre evangélicos e católicos tradicionais, sem necessariamente se alinhar ao PL.
A movimentação ocorre em um momento de indefinição sobre as eleições de 2026. Ricardo Nunes, reeleito em 2024, ainda não definiu seu candidato ao governo do estado, e a postura de Mello pode influenciar a escolha. Fontes próximas ao vice-prefeito afirmam que ele busca construir uma alternativa independente, longe da influência direta da família Bolsonaro, que domina o diretório estadual do PL.
**Análise**
A decisão de Mello de apoiar candidatos do Novo e o padre Kelmon representa mais do que uma simples divergência partidária. Ela reflete uma fragmentação da direita paulista, que até 2022 orbitava em torno de Jair Bolsonaro. Com o ex-presidente inelegível e Flávio Bolsonaro tentando consolidar seu próprio capital político, figuras como Ricardo Mello buscam espaços próprios, sem depender da máquina do PL.
Para o Partido Novo, o apoio de um vice-prefeito de São Paulo é um trunfo relevante. A legenda, que prega liberalismo econômico e gestão eficiente, tem enfrentado dificuldades para crescer em redutos conservadores tradicionais. A aliança com Mello pode abrir portas para candidatos do Novo em regiões da capital onde o PSD tem forte penetração.
Já a adesão ao padre Kelmon revela uma aposta em um discurso religioso mais explícito. Kelmon, que se apresenta como defensor da família e dos valores cristãos, pode atrair eleitores descontentes com a polarização entre Lula e Bolsonaro. No entanto, sua baixa votação anterior levanta dúvidas sobre sua capacidade de eleger-se. Mello, ao apoiá-lo, corre o risco de associar sua imagem a um candidato com pouca expressão eleitoral.
**Fontes**
As informações foram obtidas junto a assessores do vice-prefeito Ricardo Mello, que confirmaram a agenda de campanha para candidatos do Novo e para o padre Kelmon. A reportagem também consultou registros públicos de eventos políticos realizados nos últimos dias na zona sul de São Paulo, onde Mello discursou ao lado de representantes do Novo. O distanciamento de Flávio Bolsonaro foi corroborado por fontes do PL paulista, que preferiram não se identificar. Dados sobre a votação de Kelmon em 2022 são provenientes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Por Renan Filho · 2026-10-03