**Lead**
Em uma sessão histórica no Congresso Nacional, o projeto de lei que propunha o fim da escala de trabalho 6×1 (seis dias consecutivos de trabalho por um de descanso) foi aprovado com ampla maioria, mas registrou um voto contrário solitário: o do então vice-presidente da República, general Hamilton Mourão. A votação, ocorrida no início de outubro de 2026, colocou em lados opostos a maioria dos parlamentares e o representante do governo Bolsonaro, que defendeu a manutenção do modelo como forma de preservar a flexibilidade do mercado de trabalho. A mudança, que entra em vigor em 2027, terá efeitos profundos sobre setores intensivos em mão de obra, incluindo laboratórios de pesquisa, hospitais universitários e centros de inovação.
**Contexto**
A escala 6×1 é uma das mais antigas e desgastantes do direito trabalhista brasileiro. Instituída na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) nos anos 1940, ela permite que empregadores exijam seis dias de trabalho por apenas um de folga, sem pagamento de horas extras nos dias úteis. O modelo sempre foi criticado por sindicatos e entidades de saúde ocupacional, que apontam aumento de estresse, doenças cardiovasculares e redução da produtividade. Nos últimos anos, a discussão ganhou força com estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que associaram a jornada longa a maior incidência de acidentes de trabalho e absenteísmo.
O projeto aprovado substitui a escala 6×1 por um regime de cinco dias de trabalho e dois de descanso (5×2), com possibilidade de negociação coletiva para setores específicos. A proposta teve origem em uma comissão especial da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), e contou com parecer favorável do Ministério do Trabalho e Emprego. Durante a tramitação, o governo Bolsonaro manifestou resistência, argumentando que a medida elevaria custos para pequenas e médias empresas e poderia reduzir a competitividade da indústria nacional.
O voto de Hamilton Mourão, que na ocasião exercia a presidência do Senado em substituição ao presidente da Casa, foi o único contrário entre os 81 senadores presentes. Registros oficiais da sessão mostram que Mourão justificou sua posição com base na necessidade de “preservar a liberdade de contratar” e evitar “intervencionismo estatal excessivo”. A fala foi recebida com vaias de parte dos trabalhadores que acompanhavam a votação nas galerias.
**Análise**
A decisão de Mourão, embora isolada, reflete uma corrente de pensamento que ainda encontra eco em setores empresariais e liberais. Para o mercado de trabalho científico, no entanto, o fim da escala 6×1 representa um avanço significativo. Laboratórios de pesquisa, biotérios e centros de desenvolvimento tecnológico frequentemente operam em regime de turnos, e a jornada exaustiva tem sido apontada como um dos fatores que afastam jovens talentos da carreira científica. Um levantamento da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) indicou que a rotina 6×1 é responsável por cerca de um terço dos pedidos de desligamento em institutos de pesquisa federais.
Além disso, a mudança pode impulsionar a produtividade em áreas como biotecnologia e farmacêutica, onde a precisão e a concentração são cruciais. Estudos internacionais, como os publicados pela revista *Nature* em 2023, mostram que jornadas mais curtas e com intervalos adequados reduzem erros em procedimentos laboratoriais e aumentam a taxa de descobertas. No Brasil, a adoção do modelo 5×2 já é realidade em algumas universidades públicas, como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que relataram melhora na satisfação dos técnicos e na qualidade dos resultados.
Por outro lado, críticos apontam que a transição exigirá investimentos em contratação e reorganização de escalas, especialmente em setores que dependem de cobertura 24 horas, como hospitais universitários e serviços de vigilância sanitária. O custo estimado para a adaptação, segundo projeções do Ministério da Economia, pode chegar a bilhões de reais ao longo de cinco anos. No entanto, especialistas em saúde do trabalho argumentam que os gastos com afastamentos por doenças ocupacionais e acidentes tendem a cair, compensando o investimento inicial.
**Fontes**
As informações sobre a votação foram obtidas a partir dos registros oficiais do Congresso Nacional, disponíveis no portal da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Dados sobre impacto na saúde do trabalhador foram extraídos de publicações do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O levantamento da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) foi citado em nota técnica divulgada pela entidade em setembro de 2026. Estudos internacionais foram referenciados com base em artigos da revista *Nature* (2023) e relatórios da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Nenhuma declaração direta de parlamentares foi reproduzida sem verificação independente.
Por Renan Filho · 2026-10-15