**Lead** O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), ex-vice-presidente da República na gestão Jair Bolsonaro, foi o único parlamentar a votar contra o fim da escala de trabalho 6×1 durante a análise da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que tramita no Congresso Nacional. A votação, realizada no plenário do Senado, culminou com a ampla aprovação da matéria, que agora segue para promulgação. O resultado histórico, no entanto, escancara um isolamento político que vai além da questão trabalhista e acende um alerta sobre as condições de profissionais que atuam no mundo do esporte, setor profundamente dependente de escalas intensivas.
**Contexto** A escala 6×1 é um regime de trabalho no qual o empregado atua seis dias consecutivos e descansa apenas um – normalmente um dia útil, como segunda ou terça-feira. O modelo é predominante em setores como comércio varejista, indústria de produção contínua, call centers e também em infraestrutura de eventos esportivos: estádios, arenas, centros de treinamento e serviços de alimentação e limpeza desses locais operam, em sua maioria, com funcionários submetidos a essa jornada. A PEC, originada na Câmara dos Deputados e apelidada de “PEC do Fim da Escala 6×1”, propõe a substituição desse formato por jornadas de quatro dias de trabalho e três de descanso, ou outros arranjos flexíveis já adotados em países como Islândia, Noruega e Nova Zelândia.
Durante a sessão, os líderes partidários orientaram suas bancadas em favor da aprovação, destacando os benefícios para a saúde mental e física dos trabalhadores. O único voto contrário foi o de Mourão. Em discurso, o senador argumentou que a mudança abrupta poderia desorganizar a economia, elevar custos para pequenas empresas e comprometer serviços essenciais que exigem presença contínua. Ele citou hospitais, segurança pública e “infraestrutura de eventos”, incluindo os estádios de futebol, como áreas que dependem de jornadas longas e fixas.
A votação, porém, demonstrou que a pressão popular e o movimento sindical – que recolheu milhões de assinaturas pela aprovação – foram mais fortes do que a resistência conservadora. O placar esmagador foi saudado por centrais sindicais como uma vitória histórica dos direitos trabalhistas.
**Análise** O isolamento de Mourão na votação representa um fato raro no cenário político brasileiro. A figura hierárquica que já ocupou a vice-presidência da República viu-se sozinha em uma pauta que mobiliza não apenas trabalhadores urbanos, mas também atletas profissionais e todo o ecossistema esportivo. O esporte, embora não tenha sido o foco central do debate, está diretamente enraizado nas discussões sobre jornada de trabalho. Jogadores de futebol das categorias de base, por exemplo, frequentemente enfrentam treinos matinais e vespertinos com apenas um dia de folga, enquanto funcionários de clubes – roupeiros, seguranças e pessoal de manutenção – seguem a escala 6×1 sem qualquer flexibilidade. A aprovação da PEC abre caminho para que essas categorias busquem adequações sem depender de negociações individuais.
Para os setores conservadores, o temor é de que a flexibilização aumente os custos operacionais, especialmente em ligas e campeonatos que já operam com margens apertadas. No entanto, estudos internacionais citados durante a tramitação indicam que jornadas mais curtas elevam a produtividade e reduzem o absenteísmo, o que poderia beneficiar até mesmo a preparação de seleções e clubes. O voto de Mourão, nesse contexto, acaba por representar uma resistência que já é vista como anacrônica pela maioria do parlamento.
Outro ponto de análise é o impacto político para o senador. Ao se posicionar contra uma pauta com forte aceitação popular, Mourão se afasta do centro do debate e reforça sua imagem de defensor de pautas liberais na economia, mas conservadoras nos costumes. Resta saber se esse isolamento será capitalizado por seus adversários nas próximas eleições ou se, ao contrário, fortalece sua base mais fiel, que enxerga na jornada 6×1 um pilar da disciplina e da produtividade.
**Fontes** Registros oficiais da votação no Senado Federal, discursos e notas taquigráficas da sessão, matéria da Agência Senado sobre a tramitação da PEC, e dados públicos do movimento pela aprovação da proposta.
Por Renan Filho · 2026-10-15