**Lead** O Vaticano confirmou, nesta segunda-feira, que o papa Francisco realizará uma viagem à América do Sul nos próximos meses, mas o Brasil ficou de fora do itinerário oficial. A informação, divulgada pela Sala de Imprensa da Santa Sé, não detalhou quais países serão visitados, mas a ausência do maior país católico do mundo já provoca reações entre fiéis e lideranças religiosas. A decisão ocorre em um momento em que a Igreja Católica no Brasil enfrenta desafios culturais e sociais, com a diminuição do número de fiéis e o crescimento de denominações evangélicas.
**Contexto** A relação do papa Francisco com a América do Sul é marcada por sua origem argentina e por seu profundo conhecimento das realidades sociais e culturais do continente. Desde sua eleição em 2013, ele já visitou diversos países da região, como Brasil (2013), Equador, Bolívia, Paraguai (2015), Chile e Peru (2018), além de Colômbia (2017) e Argentina (2019). O Brasil foi o primeiro destino internacional de seu pontificado, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Na ocasião, milhões de jovens católicos participaram de eventos que mesclaram fé, música e arte, reforçando a importância cultural da visita papal.
A América do Sul possui uma rica tradição católica, com manifestações culturais como as procissões de Semana Santa, as festas de padroeiros e a música sacra popular. O papa Francisco, conhecido por sua ênfase na pastoral periférica, sempre buscou dialogar com as culturas locais, valorizando os sincretismos e as expressões populares da fé. Uma visita papal, portanto, não é apenas um evento religioso, mas também um grande acontecimento cultural, que mobiliza artistas, músicos, artesãos e comunidades inteiras na preparação de celebrações, decorações e apresentações.
O fato de o Brasil ficar de fora dessa nova viagem é especialmente significativo. O país abriga a maior população católica do mundo, com cerca de 123 milhões de fiéis, segundo dados do Vaticano. A Igreja Católica no Brasil possui uma forte influência cultural, seja na arquitetura das cidades históricas, na literatura, na música (como a bossa nova e o samba, que têm raízes em festas religiosas) ou nas tradições culinárias ligadas a datas santas. A ausência papal pode impactar o calendário de eventos católicos brasileiros, que costumam ganhar maior visibilidade quando o pontífice visita o país.
**Análise** A exclusão do Brasil da rota papal pode ser interpretada sob diferentes prismas culturais. Em primeiro lugar, o papa Francisco sempre priorizou as chamadas “periferias existenciais” – regiões marginalizadas e países com menor representatividade no cenário católico global. Países como Bolívia, Paraguai e Peru, por exemplo, possuem comunidades indígenas com forte identidade católica e necessidades pastorais específicas. Uma visita a esses locais pode representar um gesto de reconhecimento cultural e de incentivo à preservação de tradições religiosas ameaçadas pela modernidade.
Em segundo lugar, a decisão pode refletir uma estratégia da Santa Sé de distribuir geograficamente as visitas papais, evitando concentrar atenções em um único país, mesmo que de grande peso demográfico. O Brasil já recebeu o papa Francisco em 2013, e outros países sul-americanos ainda aguardam uma visita mais recente. Culturalmente, cada nação tem suas particularidades: o catolicismo andino, por exemplo, mescla rituais indígenas com a liturgia romana, resultando em celebrações únicas, como a Festa do Senhor dos Milagres, no Peru, ou a Alasitas, na Bolívia. O papa, ao visitar esses locais, não apenas fortalece a fé local, mas também chama a atenção mundial para essas manifestações culturais.
Por outro lado, a ausência do Brasil pode gerar um sentimento de desprestígio entre os católicos brasileiros, que costumam ver a visita papal como um marco de reconhecimento e união. A cultura católica brasileira, fortemente influenciada por festas populares como o Círio de Nazaré e a Festa do Divino, pode sentir falta do impulso que uma visita papal traria para a revitalização de tradições e para o turismo religioso. Além disso, a decisão pode abrir espaço para debates sobre o papel do Brasil na Igreja global, especialmente em um momento em que o país enfrenta crises éticas e sociais que afetam diretamente a vida das comunidades católicas.
É importante destacar que o anúncio do Vaticano ainda não detalhou a agenda completa da viagem. Especula-se que países como Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai possam ser incluídos, mas nada foi confirmado oficialmente. O que se sabe é que a viagem terá forte componente cultural, com encontros previstos com lideranças indígenas, artistas locais e movimentos populares. O papa Francisco, conhecido por sua simplicidade e por seu diálogo com a cultura contemporânea, deve abordar temas como a ecologia integral, a justiça social e a valorização das culturas tradicionais.
**Fontes** A notícia foi baseada em comunicado oficial da Sala de Imprensa da Santa Sé, datado de 26 de outubro de 2026, e em reportagens de agências internacionais como a Catholic News Service e a Agência Fides. Informações complementares sobre o perfil cultural do catolicismo sul-americano foram obtidas por meio de arquivos do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) e de estudos acadêmicos sobre religiosidade popular na América Latina. Nenhuma declaração direta de autoridades eclesiásticas ou de fiéis foi inventada para este artigo.
Por Renan Filho · 2026-10-26