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Ciencia

Valdinei Ferreira e a instrumentalização da fé: estudo aponta uso eleitoral de símbolos religiosos no Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-01

Pesquisador analisa como a associação de candidatos a figuras sagradas, como Jesus e Nossa Senhora, configura estratégia de manipulação eleitoral, com foco no caso do senador Flávio Bolsonaro.

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Um estudo conduzido pelo cientista político Valdinei Ferreira, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), revela que a associação de candidatos a figuras religiosas como Jesus Cristo e Nossa Senhora tem sido utilizada como ferramenta de manipulação eleitoral no Brasil. A pesquisa, que analisa campanhas entre 2018 e 2026, aponta o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como um dos casos mais emblemáticos dessa estratégia, que mistura fé e política para capturar o voto de eleitores evangélicos e católicos.

**Contexto**

Valdinei Ferreira, doutor em Ciência Política e especialista em comportamento eleitoral, publicou recentemente um artigo no periódico *Revista Brasileira de Ciência Política* no qual examina a crescente sacralização de candidatos no Brasil. Segundo o pesquisador, a prática não é nova, mas ganhou contornos mais sofisticados com o uso de redes sociais e marketing digital. "O que vemos é a transformação de figuras políticas em ícones quase divinos, onde a crítica ao candidato é tratada como blasfêmia", explica Ferreira, em trecho do estudo.

O caso de Flávio Bolsonaro é destacado por sua campanha ao Senado em 2022, quando materiais de divulgação o mostravam ao lado de imagens de Jesus e Nossa Senhora Aparecida, com slogans como "Deus, pátria e família". A pesquisa de Ferreira aponta que essa associação não é acidental, mas parte de uma estratégia calculada para explorar a religiosidade do eleitorado brasileiro, que, segundo o Datafolha, é majoritariamente cristão (cerca de 86% da população).

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que, nas eleições de 2022, candidatos que utilizaram símbolos religiosos em suas campanhas tiveram, em média, um aumento de 12% na intenção de voto entre eleitores que frequentam cultos ou missas semanalmente. Embora o estudo de Ferreira não cite números exatos, ele descreve uma tendência clara de correlação entre o uso de imagens sagradas e o desempenho eleitoral em regiões com alta densidade religiosa, como o Nordeste e o Sudeste.

**Análise**

A instrumentalização da fé por candidatos como Flávio Bolsonaro levanta questões éticas e legais. O artigo de Ferreira argumenta que, ao se associar a Jesus ou Nossa Senhora, o político busca um atalho emocional que desvia o debate de propostas concretas para uma esfera de devoção pessoal. "A fé vira um escudo contra críticas. Questionar o candidato é questionar a própria religião", escreve o cientista. Isso cria um ambiente onde o eleitor é levado a votar não por convicção política, mas por lealdade religiosa, o que pode distorcer a democracia representativa.

O impacto dessa estratégia é sentido especialmente em comunidades de baixa renda e menor escolaridade, onde a igreja muitas vezes é a principal instituição de referência. Ferreira aponta que pastores e padres, em alguns casos, atuam como "influenciadores eleitorais", endossando candidatos que prometem defender valores cristãos. No caso de Flávio Bolsonaro, sua proximidade com líderes evangélicos, como o pastor Silas Malafaia, é documentada em reportagens da *Folha de S.Paulo* e do *UOL*, que mostram encontros e alianças políticas.

A tendência, segundo o estudo, é de que essa prática se intensifique nas eleições de 2026, com o avanço de tecnologias de microssegmentação de eleitores. Partidos de direita e centro-direita, como o PL e o Republicanos, já investem em equipes de marketing especializadas em comunicação religiosa. "A fé virou commodity eleitoral", alerta Ferreira, que defende a necessidade de regulamentação mais clara sobre o uso de símbolos religiosos em campanhas.

**Fontes**

- Valdinei Ferreira, cientista político e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), autor do estudo "Fé e Voto: A Instrumentalização Religiosa nas Campanhas Eleitorais Brasileiras" (2025), publicado na *Revista Brasileira de Ciência Política*. - Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre candidaturas e desempenho eleitoral em 2022. - Pesquisa Datafolha sobre perfil religioso do eleitorado brasileiro (2023). - Reportagens da *Folha de S.Paulo* e *UOL* sobre alianças políticas de Flávio Bolsonaro com líderes religiosos (2022-2024).

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.