FORTIS
← FORTIS
Tecnologia

Universidades privadas cobram reforma estrutural do Fies e do Prouni em carta aos presidenciáveis

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-28

Entidades do ensino superior particular entregam aos candidatos à Presidência um diagnóstico contundente: sem mudanças de fundo no financiamento estudantil, o país vai ampliar o apagão de mão de obra qualificada. O FORTIS NEWS analisa as propostas à luz da lógica de mercado.

O ensino superior privado brasileiro, responsável por mais de 75% das matrículas ativas no país, resolveu sair da defensiva e entrar no debate eleitoral com uma pauta objetiva. Em documento protocolado junto às campanhas dos principais candidatos à Presidência da República, entidades representativas do setor — como a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) e o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (SEMESP) — formalizaram um pedido de revisão profunda nos dois maiores programas de acesso ao ensino superior: o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa Universidade para Todos (Prouni).

O documento, obtido com exclusividade pela reportagem, não se limita a pedir recomposição orçamentária. Vai além: propõe a criação de um modelo híbrido de financiamento, a ampliação do uso de contratos de risco compartilhado e a revisão dos critérios de inadimplência que hoje travam a adesão de novas instituições. A avaliação das mantenedoras é que os programas, do jeito que estão, tornaram-se financeiramente insustentáveis e pedagogicamente ineficientes.

Segundo dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), a taxa de inadimplência do Fies ultrapassa 45% entre contratos firmados após 2017, quando o programa foi reformulado pela Lei 13.530/2017. O rombo acumulado é estimado em mais de R$ 100 bilhões, valor que compromete a capacidade do governo de lançar novas turmas e obriga as universidades a operar com capital de giro próprio para cobrir lacunas do repasse federal. Já o Prouni, embora não envolva desembolso direto do Tesouro — pois funciona com a renúncia fiscal —, viu o número de bolsas integrais despencar em razão do endurecimento dos critérios de renda e da burocracia de validação de informações.

"Não estamos pedindo subsídio. Estamos pedindo previsibilidade e responsabilidade fiscal", afirmou ao FORTIS NEWS o diretor executivo de uma das maiores redes privadas do país, que preferiu não se identificar. "As faculdades não são entidades filantrópicas; somos empresas que geram empregos, pagam impostos e formam gente. O governo trata o Fies como se fosse um programa social sem custo. É um engano."

A pauta ganha contornos ainda mais urgentes diante do cenário econômico: a taxa de juros elevada — a Selic em 11,75% ao ano na projeção do mercado para dezembro — encarece o custo do capital e estrangula o caixa das mantenedoras de pequeno e médio porte. Muitas delas já anunciaram a suspensão de novos investimentos em laboratórios, tecnologia e contratação de docentes. Em um país que precisa formar engenheiros, analistas de dados e profissionais de saúde em ritmo acelerado, a paralisia do setor é um risco estratégico de primeira ordem.

O FORTIS NEWS apurou que a interlocução com os candidatos ocorreu em duas frentes: a primeira, uma reunião técnica com economistas das campanhas de centro e de centro-direita; a segunda, o envio de uma carta aberta com dados empíricos sobre o impacto do Fies no PIB educacional. No caso do Prouni, as propostas incluem a criação de uma espécie de "bolsa-permanência" para alunos de baixa renda, financiada com um percentual do próprio fundo de reserva do programa, e a simplificação do processo de comprovação de renda, hoje apontado como um dos maiores gargalos.

Análise FORTIS

A agenda das universidades privadas é um teste decisivo para os candidatos que se dizem liberais. De um lado, o discurso de responsabilidade fiscal exige corte de gastos e eficiência alocativa. De outro, a tentação de expandir programas assistenciais sem lastro é historicamente irresistível em ano eleitoral. O Fies criado em 2001 foi um instrumento de inclusão; o Fies de 2026 transformou-se em um sorvedouro de recursos que penaliza o contribuinte e a própria instituição privada — que fica refém do cronograma de repasses e da morosidade judicial.

A proposta de risco compartilhado, na qual a instituição assume parte da inadimplência em troca de maior autonomia na seleção de beneficiários, é uma saída inteligente e alinhada ao princípio de que nenhum agente econômico deve ter lucro garantido pelo Estado, mas também nenhum deve ser asfixiado por essa mesma máquina pública. É curioso que essa bandeira não seja encampada com força pelos presidenciáveis de direita, que falham ao não conectar educação e produtividade. O país que quer ser competitivo em tecnologia, agronegócio e serviços precisa de capital humano — e isso não se resolve com narrativas de justiça social, mas com contratos claros e previsíveis.

O FORTIS NEWS lembra: a verdade dos números é implacável. Se não houver reforma no Fies e no Prouni, o Brasil continuará a formar menos engenheiros do que o Chile, em termos proporcionais, e verá o êxodo de talentos para o exterior se intensificar. As universidades privadas estão dizendo que têm solução — e que essa solução não custa mais dinheiro público. Custa apenas gestão, transparência e coragem política para romper o ciclo de privilégios e ineficiência.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.