Um estudo do Ipea, divulgado nesta quinta-feira (25), cruzou os dados de autodeclaração racial de 8.234 candidatos a deputado federal nas eleições de 2022 com a percepção visual de entrevistadores treinados. O resultado é um tapa de luva na narrativa de que o Congresso brasileiro é dominado por uma elite branca que não representa a população.
Dos candidatos que se disseram pretos ou pardos no formulário de candidatura, 34% foram vistos como brancos por terceiros. Na ponta oposta, 10% dos que se autodeclararam brancos foram classificados como pretos ou pardos. Ou seja: a autodeclaração racial, base das políticas de cotas e de distribuição de fundos eleitorais, é um critério fluido, subjetivo e, em larga escala, não corresponde à realidade perceptível.
O dado é especialmente incômodo para a narrativa de que o sistema político brasileiro exclui minorias raciais. Se um terço dos candidatos não-brancos é visto como branco, isso significa que a classificação racial não é um marcador objetivo de exclusão, mas sim um constructo social que varia conforme o contexto. A esquerda, que há décadas pauta a legislação eleitoral e as cotas raciais, não tem resposta para esse fenômeno — e o silêncio é ensurdecedor.
O estudo do Ipea usou a metodologia de classificação racial por observação visual, a mesma empregada pelo IBGE para definir os grupos de cor ou raça em pesquisas domiciliares. A lógica é simples: um entrevistador treinado olha para a foto do candidato e o classifica em uma das cinco categorias (branco, preto, pardo, amarelo, indígena). O resultado foi confrontado com a autodeclaração no registro de candidatura.
Para o FORTIS, o que importa aqui são os fatos. O fato é que a política de cotas raciais em candidaturas — que reserva percentual do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral para candidatos negros — se baseia exclusivamente na autodeclaração. Não há comissão de verificação, não há heteroidentificação obrigatória para todos os cargos. O sistema depende da boa-fé (ou da má-fé) de cada candidato.
E a má-fé, como sempre, encontra brechas. Em 2022, o TSE recebeu centenas de denúncias de candidatos brancos que se declararam pardos para acessar os recursos. O próprio tribunal já reconheceu que o modelo é frágil. Em publicação nas redes sociais, o juiz auxiliar da presidência do TSE, Rodrigo Rigamonte, afirmou que “a autodeclaração sem controle favorece fraudes e distorce a representatividade real”. A declaração foi dada em agosto de 2022, em entrevista à Rádio CBN.
Por que isso importa? Porque o dinheiro público está em jogo. Em 2022, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) distribuiu R$ 4,9 bilhões aos partidos. Desse total, 30% foram obrigatoriamente destinados a candidaturas de pessoas negras, conforme decisão do STF. Se um em cada três desses candidatos é, na prática, branco, estamos diante de uma transferência de recursos públicos para quem não é o público-alvo da política — o que configura, no mínimo, ineficiência alocativa.
O liberal-conservadorismo enxerga o problema com clareza: uma política pública que não é verificável, que depende de critérios subjetivos e que gera incentivos para a mentira é uma política condenada ao fracasso ou ao desvio de finalidade. Não se trata de negar a existência de desigualdades raciais no Brasil — elas existem e são reais. A questão é que o remédio adotado (cotas raciais nas candidaturas) é malfeito, mal fiscalizado e, pelos dados do Ipea, ineficaz para atingir o objetivo declarado.
A esquerda, que defendeu com unhas e dentes a política de cotas nas eleições, agora se cala diante dos números. Em nota à imprensa, o PSOL e o PT afirmaram que “o estudo do Ipea demonstra a complexidade da classificação racial no Brasil e a necessidade de aprofundar o debate”. Em outras palavras: não contestam os números, mas também não propõem correções. A postura é típica de quem prefere a narrativa à verdade factual.
O presidente da Frente Parlamentar Mista pela Igualdade Racial, deputado Damião Feliciano (União-PB), também evitou polêmica em declaração à Agência Câmara. “Os dados merecem análise cuidadosa. A autodeclaração é um direito, mas precisamos de mecanismos de controle para evitar fraudes”, disse. A frase é genérica e não enfrenta o problema de frente.
Para o FORTIS, a saída é simples: adotar, para todos os cargos eletivos, o sistema de heteroidentificação facial obrigatório — o mesmo já usado em concursos públicos federais. A banca avaliadora, formada por servidores treinados e com composição plural, classifica o candidato com base em critérios objetivos (fenótipo, não genótipo). Isso reduz a margem para fraudes e torna a política mais justa para quem realmente precisa.
O custo? Mínimo. O benefício? Imenso: recursos públicos bem direcionados e credibilidade do sistema eleitoral. Mas, como tudo no Brasil, o lobby político-partidário prefere a zona cinzenta — onde é mais fácil esconder distorções.
O estudo do Ipea é um alerta. A política de cotas raciais nas candidaturas não é o que parece. E, enquanto a esquerda continuar ignorando os fatos em nome da ideologia, quem perde é o contribuinte — que financia campanhas de candidatos que, na prática, não são negros. O liberalismo de verdade exige transparência, verificabilidade e eficiência. E esses dados mostram que estamos longe disso.
Por Renan Filho · 2026-09-25