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Opiniao

A última eleição da Nova República: o alerta de Maria Hermínia Tavares sobre o colapso do sistema político brasileiro

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-30

Em artigo recente, a cientista política Maria Hermínia Tavares argumenta que as eleições de 2026 podem marcar o fim do ciclo político iniciado em 1985, expondo a falência do modelo de coalizão que sustentou a democracia brasileira.

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A cientista política Maria Hermínia Tavares, uma das mais respeitadas analistas da vida pública brasileira, acaba de publicar um artigo de opinião intitulado “A última eleição da Nova República”, no qual sustenta que o pleito presidencial de 2026 pode ser o derradeiro a ocorrer dentro do marco institucional e partidário que vigorou desde a redemocratização. Para a autora, o esgotamento do sistema de presidencialismo de coalizão, a fragmentação partidária extrema e a erosão da confiança nas instituições teriam criado as condições para que esta seja, de fato, a eleição que encerra um capítulo histórico do país. O texto, que circula em veículos de grande circulação, já provoca reações intensas nos meios acadêmicos e políticos.

**Contexto**

A expressão “Nova República” designa o período que se seguiu ao regime militar (1964-1985), quando o Brasil retomou a via democrática com a eleição indireta de Tancredo Neves, seguida da Constituição de 1988 e da primeira eleição direta para presidente em 1989. Desde então, o país realizou oito eleições presidenciais, com alternância de poder e formação de coalizões que envolveram desde partidos de centro-esquerda até legendas conservadoras. Maria Hermínia Tavares, professora titular aposentada do Departamento de Ciência Política da USP, sempre esteve atenta a esse processo. Em sua extensa obra, destacam-se estudos sobre o sistema partidário, a reforma do Estado e as relações entre Executivo e Legislativo. O artigo em questão parte de uma premissa crítica: o que sustentou a governabilidade durante essas décadas — o presidencialismo de coalizão, com sua lógica de troca de cargos por apoio parlamentar — tornou-se, no cenário atual, uma máquina incapaz de gerar consensos mínimos.

A autora situa a degradação no contexto da polarização radicalizada, do fortalecimento de lideranças autoritárias e da crise de representação que atingiu as principais siglas. Ela lembra que, nas últimas eleições, a fragmentação partidária na Câmara dos Deputados superou a casa das três dezenas de legendas, inviabilizando majorias estáveis e transferindo o poder decisório para núcleos de veto e para o Centrão. A transformação digital e o papel das redes sociais na formação da opinião pública também são citados como fatores que desgastaram as mediações políticas tradicionais, expondo os partidos a uma volatilidade eleitoral sem precedentes. Tavares não se limita ao diagnóstico: ela aponta que a próxima eleição presidencial ocorre em meio a uma crise de legitimidade que atinge simultaneamente os três Poderes, justamente quando o mundo vive a emergência de novas clivagens políticas, do avanço da extrema direita e da fragilização de regimes liberais.

**Análise**

O argumento de Maria Hermínia Tavares não é mero catastrofismo acadêmico; ele se ancora em processos observáveis. O presidencialismo de coalizão, que durante a Nova República garantiu estabilidade em momentos de forte turbulência, como em 1992 e 2016, parece ter atingido seu limite. A sucessão de crises políticas que culminaram no impeachment de 2016, na prisão do ex-presidente Lula e na ascensão de Jair Bolsonaro revelou um aprofundamento da desconfiança cidadã e uma erosão das regras informais que pautavam a negociação entre Executivo e Legislativo. O enfraquecimento da lealdade partidária, a profissionalização das campanhas digitais e a personalização da política transformaram o ambiente eleitoral em um campo minado, onde a capacidade de formar coalizões pós-eleitorais caiu vertiginosamente. A autora sugere que, se as eleições de 2026 forem vencidas por uma candidatura de viés antipetista ou antissistema, a ruptura poderá ser definitiva, com atropelo de procedimentos democráticos e possível contestação prolongada dos resultados.

A percepção de que esta é a “última eleição da Nova República” subverte o otimismo que marcou o início do período. Em vez de consolidar a democracia, o país estaria caminhando para uma espécie de “degenerescência institucional”, na qual o jogo eleitoral deixa de ser o fator determinante da governança. Tavares não defende respostas fáceis, mas cobra das elites políticas uma reforma profunda do sistema — que inclua mudanças no mecanismo de coalizão, no sistema eleitoral e nas formas de financiamento — para tentar salvar aquilo que ainda pode ser salvo. Ela reconhece, no entanto, que a janela de oportunidade é curta e que as forças políticas tradicionais, enfraquecidas pela rejeição popular, dificilmente conseguirão reverter o quadro a tempo. O seu texto funciona, assim, como um chamado urgente para que a sociedade civil e as instituições debatam o futuro antes que seja tarde demais.

**Fontes**

- Artigo de opinião “A última eleição da Nova República”, de Maria Hermínia Tavares, publicado em veículo de imprensa nacional. - Obra acadêmica da autora sobre presidencialismo de coalizão e sistema político brasileiro. - Dados públicos sobre fragmentação partidária e eleições, disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral. - Relatórios do Índice de Democracia (The Economist) e de entidades como a Transparency International sobre a qualidade democrática do país.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.