**Lead**
A dois dias das eleições no Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) admite, nos bastidores, que não treinou os mesários para identificar e coibir o uso de óculos inteligentes nas seções de votação. Equipamentos como Google Glass, Ray-Ban Meta e outros wearables com câmera e conexão à internet representam uma ameaça concreta ao sigilo do voto, já que podem ser usados para fotografar a urna, transmitir instruções ou registrar o voto do eleitor. O ministro Kassio Nunes Marques, relator de processos sobre segurança eleitoral no TSE, vem sendo cobrado por partidos políticos, especialistas em tecnologia e entidades de fiscalização para que edite uma resolução de urgência ou orientação específica sobre o tema. Até o momento, a corte não se pronunciou oficialmente sobre a lacuna no treinamento.
**Contexto**
Os óculos inteligentes são dispositivos que integram câmera, microfone, alto-falante e, em muitos modelos, tela transparente com acesso à internet. Eles se popularizaram nos últimos anos com versões voltadas ao consumidor final, como os Ray-Ban Meta (em parceria com a Meta) e os Google Glass Enterprise Edition. Embora discretos, esses aparelhos permitem gravar vídeos, fazer chamadas e até mesmo acessar aplicativos de mensagens sem que o usuário precise segurar um celular. Nas eleições brasileiras, o uso de celulares é proibido na cabine de votação desde 2018, mas os óculos inteligentes não foram explicitamente mencionados nas resoluções do TSE. A ausência de treinamento específico para mesários significa que, na prática, muitos deles não saberão como agir caso um eleitor entre na cabine usando um desses dispositivos.
O TSE realizou, ao longo de 2026, uma série de capacitações presenciais e online para os mesários que atuarão no pleito. Os módulos incluíram procedimentos para identificação de documentos, funcionamento da urna eletrônica, prevenção de filas e conduta em casos de suspeita de fraude. No entanto, nenhum dos materiais oficiais disponibilizados até a data de hoje aborda o reconhecimento de óculos inteligentes ou a conduta a ser adotada diante de um eleitor que se recuse a retirar o dispositivo. A informação foi confirmada por fontes ligadas à área de treinamento do tribunal, que preferiram não se identificar. O ministro Kassio Nunes Marques, que integra o TSE como membro efetivo desde 2020 e é relator de ações que tratam de segurança cibernética e integridade do processo eleitoral, tem recebido ofícios e requerimentos de partidos como PT, PSDB e Novo, além de associações de fiscalização eleitoral, solicitando uma normativa emergencial.
**Análise**
A omissão do TSE em treinar mesários para lidar com óculos inteligentes revela uma defasagem entre a velocidade da inovação tecnológica e a capacidade regulatória da Justiça Eleitoral. Enquanto as resoluções sobre celulares foram atualizadas em 2018, os wearables com câmera só ganharam escala comercial a partir de 2023. O risco é real: um eleitor mal-intencionado poderia usar os óculos para fotografar a tela da urna e, posteriormente, vender ou compartilhar a imagem como prova de voto, prática que fere o princípio do voto secreto. Além disso, a transmissão ao vivo de dentro da cabine poderia permitir que terceiros orientem o voto em tempo real, configurando crime de violação do sigilo eleitoral. A ausência de treinamento específico também expõe os mesários a situações de constrangimento e insegurança jurídica, já que não há protocolo claro sobre como abordar o eleitor.
A cobrança sobre o ministro Kassio Nunes Marques se intensificou nas últimas 48 horas. Ele é o relator de um processo que discute a obrigatoriedade de o TSE atualizar as normas de segurança a cada novo ciclo eleitoral, considerando a evolução tecnológica. Especialistas em direito digital apontam que, mesmo sem uma resolução específica, o tribunal poderia emitir uma instrução normativa simples, enviada por e-mail ou aplicativo de mensagens aos mesários, orientando-os a solicitar a retirada de qualquer dispositivo com câmera durante a votação. A medida seria paliativa, mas reduziria o risco de incidentes. No campo da cultura política, a situação evidencia como a confiança no processo eleitoral depende não apenas da integridade técnica da urna, mas também da capacidade de adaptação dos agentes humanos que a operam. A falta de preparo para um cenário que já é realidade no dia a dia das ruas – pessoas usando óculos inteligentes para gravar selfies, ligações e até mesmo dirigir – indica um descompasso entre a cultura de inovação e a cultura de segurança pública.
**Fontes**
As informações deste artigo foram obtidas a partir de documentos oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), incluindo os manuais de treinamento de mesários disponíveis no site institucional (www.tse.jus.br), e de requerimentos protocolados por partidos políticos com representação no Congresso Nacional. A atuação do ministro Kassio Nunes Marques como relator de processos sobre segurança eleitoral é de conhecimento público, registrada em atas de sessões do TSE e em matérias veiculadas por veículos de imprensa como Agência Brasil e JOTA. Não foram utilizadas fontes anônimas para declarações diretas; as menções a bastidores referem-se a conversas informais com servidores do tribunal que não autorizaram a identificação. A análise técnica sobre o funcionamento de óculos inteligentes baseia-se em especificações divulgadas pelos fabricantes Meta e Google, além de relatórios de segurança cibernética do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI).
Por Renan Filho · 2026-10-02