A declaração da colunista Mafalda Anjos, publicada recentemente, acendeu o debate sobre as reais intenções da administração Trump em relação ao Brasil. Ao afirmar que o ex-presidente norte-americano só quer 'michês, serviçais e escroques' em posições-chave no Brasil, a analista tocou em um nervo exposto da diplomacia brasileira. Mas, como sempre, é preciso separar o joio do trigo e examinar os fatos à luz da realidade, sem histeria e sem viés ideológico.
A declaração de Mafalda Anjos, embora contundente, não surgiu do vácuo. Ela reflete um padrão observado na política externa de Donald Trump, que sempre tratou o Brasil como um mero apêndice dos Estados Unidos, um mercado emergente a ser explorado, nunca como um parceiro estratégico. A nomeação de embaixadores e a formulação de políticas para a América do Sul sob a ótica trumpista sempre priorizaram a lealdade pessoal ao presidente norte-americano em detrimento de interesses institucionais de longo prazo.
CONTEXTO: A relação entre Brasil e Estados Unidos sempre foi assimétrica, mas a era Trump elevou essa assimetria a um patamar preocupante. Durante seu mandato, Trump deixou claro que esperava alinhamento automático do Brasil às suas pautas, desde a mudança da embaixada em Israel para Jerusalém até a posição em relação à Venezuela. Qualquer desvio de rota era punido com ameaças comerciais ou com o esquecimento diplomático. O Brasil, que já foi chamado de 'filho mais velho da América', passou a ser tratado como um 'michê' geopolítico: útil para alguns serviços, descartável quando não mais necessário.
A visão de Mafalda Anjos, embora dura, encontra eco em fatos. A escolha de nomes para cargos sensíveis no Itamaraty e na área de segurança durante a aproximação com o governo Trump foi marcada por indicações de pessoas sem o devido preparo técnico, mas com forte apelo ideológico. Isso não é um julgamento moral, mas uma constatação prática. A política externa brasileira, que um dia foi reconhecida pela sua coerência e autonomia, passou a ser refém de uma agenda de subserviência que não se via desde a Guerra Fria.
ANÁLISE FORTIS: A leitura liberal-conservadora que o FORTIS NEWS faz é clara: a soberania nacional não é negociável, e o livre mercado não pode ser confundido com submissão. Trump representa uma faceta do intervencionismo americano que, sob o discurso de 'América Primeiro', busca desmantelar a indústria nacional dos países periféricos. A declaração de Mafalda Anjos, portanto, é um alerta para que o Brasil não caia na armadilha de achar que o alinhamento automático trará benefícios econômicos. A história mostra que os EUA de Trump não fazem concessões sem contrapartidas, e as contrapartidas exigidas geralmente vêm na forma de abertura de mercado para produtos americanos, sem a correspondente abertura para os produtos brasileiros.
A segurança é outro ponto crítico. Ao tratar o Brasil como um 'michê' geopolítico, a administração Trump sinaliza que espera do país um papel de gendarme regional, combatendo a influência chinesa e o narcotráfico, mas sem oferecer em troca a transferência de tecnologia ou o apoio logístico necessário. A dependência brasileira de suprimentos militares estrangeiros, especialmente dos EUA, é um risco à soberania nacional. O Brasil precisa de uma política de defesa autônoma, que priorize a indústria nacional e a integração sul-americana, e não de uma relação de vassalagem.
Não se trata de demonizar os EUA, que continuam sendo um importante parceiro comercial e estratégico. Trata-se de defender os interesses nacionais com maturidade e realismo. A declaração de Mafalda Anjos, nesse sentido, é um convite à reflexão. Ela nos obriga a questionar: até que ponto a atual política externa brasileira está servindo aos interesses do povo brasileiro? E até que ponto está apenas servindo aos interesses pessoais e eleitoreiros de uma elite que se beneficia da desnacionalização da economia e da subserviência internacional?
Por Renan Filho · 2026-09-27