**Lead**
O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a utilizar o caso judicial envolvendo Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, como ferramenta de mobilização da base republicana nos EUA, com o objetivo declarado de influenciar a política externa americana em relação ao Brasil. A estratégia, que mescla retórica política e interesses econômicos, já começa a gerar ondas de incerteza nos mercados financeiros e nos setores exportadores brasileiros, que temem uma reconfiguração das relações bilaterais caso Trump retorne à Casa Branca.
**Contexto**
O caso Flávio Bolsonaro refere-se a investigações sobre supostas irregularidades em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, conhecido como esquema de "rachadinha". Embora o processo esteja em andamento no Brasil, Trump passou a mencioná-lo em discursos e eventos fechados com doadores republicanos, argumentando que a perseguição judicial a aliados de Jair Bolsonaro seria um sinal de instabilidade política que justificaria uma postura mais assertiva dos EUA em defesa de seus parceiros conservadores na América Latina.
A movimentação ocorre em um momento delicado para a economia brasileira. O Brasil depende fortemente de investimentos estrangeiros diretos e de acordos comerciais com os Estados Unidos, seu segundo maior parceiro comercial. Em 2025, o fluxo de comércio bilateral ultrapassou a marca de US$ 80 bilhões, com destaque para exportações de aço, minério de ferro, petróleo e produtos agrícolas. Qualquer sinal de que Trump, se eleito, possa condicionar a continuidade desses acordos à situação jurídica de aliados bolsonaristas gera apreensão entre empresários e investidores.
Além disso, a narrativa trumpista encontra eco em setores do Partido Republicano que já defendem uma revisão das tarifas de importação impostas pelo governo Biden. Em 2024, os EUA mantiveram quotas para o aço brasileiro, mas a administração democrata sinalizou abertura para negociações. Trump, por outro lado, historicamente adota uma postura protecionista e já ameaçou impor tarifas a países que considera hostis a seus aliados políticos.
**Análise**
A instrumentalização do caso Flávio Bolsonaro por Trump não é apenas um movimento de solidariedade ideológica; trata-se de uma estratégia calculada para pressionar o governo brasileiro e, ao mesmo tempo, consolidar sua base eleitoral entre republicanos que veem o Brasil como um campo de batalha geopolítico. Para Trump, associar a suposta perseguição a Flávio Bolsonaro a uma suposta agenda globalista de esquerda serve para mobilizar doadores e ativistas, que enxergam no Brasil um laboratório de resistência conservadora.
Do ponto de vista econômico, o impacto imediato já é perceptível. O real brasileiro sofreu desvalorização nas últimas semanas, em parte atribuída à incerteza gerada pelas declarações de Trump. Analistas de mercado apontam que a volatilidade cambial pode se intensificar se o ex-presidente americano conseguir transformar o caso em um tema central da campanha republicana. Empresas brasileiras com exposição ao mercado americano, como as siderúrgicas e as do agronegócio, monitoram de perto os desdobramentos.
Outro ponto relevante é o efeito sobre as negociações de um possível acordo de livre comércio entre Brasil e EUA, que vinha sendo discutido nos bastidores diplomáticos. A abordagem de Trump, ao condicionar a relação bilateral a questões judiciais internas brasileiras, pode inviabilizar qualquer avanço concreto. Especialistas em comércio internacional alertam que a politização de casos jurídicos individuais cria um precedente perigoso, transformando a economia em refém de disputas políticas.
**Fontes**
As informações foram obtidas a partir de reportagens da Reuters, Bloomberg e do jornal O Globo, que cobriram os discursos de Trump em eventos republicanos nos estados da Flórida e do Texas. Dados comerciais foram extraídos de relatórios do Ministério da Economia do Brasil e do Departamento de Comércio dos EUA. Análises de mercado foram baseadas em comunicados de instituições financeiras como o Itaú BBA e o Bank of America, sem citação direta de nomes de analistas.
Por Renan Filho · 2026-10-29