FORTIS
← FORTIS
Economia

Transporte é a principal dificuldade de infraestrutura para 75% dos empresários, aponta CNI

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-11-05

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria revela que a precariedade do setor de transportes é o maior entrave logístico para o setor produtivo brasileiro, superando energia, telecomunicações e saneamento.

**Lead**

A precariedade do sistema de transportes brasileiro é apontada como o principal gargalo de infraestrutura por três em cada quatro empresários industriais do país, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O dado, divulgado nesta quarta-feira, 5 de novembro de 2026, reforça um diagnóstico já conhecido: o Brasil sofre com uma logística ineficiente que encarece a produção, reduz a competitividade externa e afasta investimentos. O estudo, realizado com mais de 2 mil empresas de todos os portes e regiões, mostra que o transporte — rodoviário, ferroviário, portuário e aeroportuário — concentra as maiores reclamações do setor produtivo, superando problemas históricos como o custo da energia elétrica e a qualidade das telecomunicações.

**Contexto**

A pesquisa da CNI, intitulada “Sondagem Especial de Infraestrutura”, ouviu empresários entre agosto e outubro de 2026. Quando questionados sobre qual área de infraestrutura representa a maior dificuldade para os negócios, 75% dos entrevistados apontaram o transporte. Em segundo lugar aparecem os gargalos de energia (12%), seguidos por telecomunicações (7%) e saneamento básico (6%). O levantamento também revela que a insatisfação com o transporte é transversal: atinge tanto pequenas indústrias locais quanto grandes exportadoras.

O Brasil possui uma matriz de transporte fortemente dependente do modal rodoviário, responsável por cerca de 60% do deslocamento de cargas. No entanto, a malha rodoviária nacional apresenta sérios problemas de conservação. Dados do próprio governo federal indicam que mais da metade das rodovias pavimentadas do país está em condições regulares, ruins ou péssimas. A falta de manutenção, o excesso de buracos e a sinalização deficiente aumentam o tempo de viagem, o consumo de combustível e o desgaste dos veículos, elevando o chamado “custo Brasil”.

Paralelamente, o modal ferroviário, que poderia aliviar a pressão sobre as estradas, ainda é subutilizado. A malha ferroviária brasileira tem extensão de aproximadamente 30 mil quilômetros, mas grande parte dela é voltada para o escoamento de commodities agrícolas e minerais, com baixa capilaridade para atender a indústria de transformação. Os portos, por sua vez, enfrentam entraves burocráticos e de infraestrutura, como dragagem insuficiente e falta de modernização de terminais, o que gera filas e atrasos nas exportações.

A CNI já vinha alertando para o problema em edições anteriores da sondagem. Em 2024, o transporte já liderava as queixas, mas com 68% das menções. O aumento para 75% em dois anos indica uma piora na percepção empresarial, possivelmente agravada por eventos climáticos extremos que danificaram estradas e por cortes orçamentários em obras de infraestrutura. O governo federal lançou em 2025 o programa “Estradas para o Desenvolvimento”, com previsão de investimentos de R$ 50 bilhões em cinco anos, mas os empresários avaliam que a execução tem sido lenta e insuficiente.

**Análise**

A centralidade do transporte na pauta de infraestrutura reflete um problema estrutural que afeta diretamente a produtividade da economia brasileira. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que os custos logísticos no Brasil representam cerca de 12% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto em países desenvolvidos esse percentual fica entre 6% e 8%. A diferença é explicada, em grande parte, pela ineficiência do sistema de transportes. Para a indústria, cada dia perdido em congestionamentos ou espera em portos significa aumento de estoques, necessidade de capital de giro maior e perda de contratos internacionais.

O impacto não se limita ao setor industrial. A logística deficiente encarece o preço final de alimentos, medicamentos e outros bens essenciais, pressionando a inflação e reduzindo o poder de compra da população. Além disso, a falta de investimentos em ferrovias e hidrovias mantém o país refém do caminhão, modal que emite mais gases de efeito estufa por tonelada transportada. Em um momento em que o mundo discute descarbonização, a dependência do transporte rodoviário coloca o Brasil em desvantagem competitiva nos mercados que exigem cadeias produtivas mais verdes.

A pesquisa da CNI também sinaliza uma oportunidade para o governo e o setor privado. A percepção unânime dos empresários de que o transporte é o principal gargalo pode servir de catalisador para a aprovação de reformas e a atração de investimentos. Parcerias público-privadas (PPPs) em rodovias e ferrovias têm avançado, mas ainda esbarram em questões regulatórias e de segurança jurídica. A modernização dos portos, com a digitalização de processos e a ampliação da capacidade, também é apontada como prioridade por especialistas.

**Fontes**

Confederação Nacional da Indústria (CNI) – Sondagem Especial de Infraestrutura 2026. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – Estudos sobre custos logísticos no Brasil. Ministério dos Transportes – Dados sobre condições das rodovias federais. Programa “Estradas para o Desenvolvimento” – Governo Federal.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.