**Lead**
Na noite de uma eleição, de uma final de campeonato ou da virada do ano, um som característico toma conta de bairros inteiros no Brasil: o estouro de fogos de artifício, rojões e, em muitos lugares, o disparo de armas de fogo para o alto. Conhecido popularmente como “foguetório”, o ritual é uma tradição enraizada em diversas regiões do país, mas o balanço de suas consequências revela um padrão preocupante: a tática de celebrar com barulho e fogo raramente termina como o esperado. Ferimentos graves, incêndios, danos à audição e até mortes são registrados ano após ano, transformando a festa em tragédia.
**Contexto**
O foguetório não é um fenômeno recente. No Brasil, o uso de fogos de artifício e armas de fogo em comemorações remonta ao período colonial, influenciado por tradições europeias e adaptado à cultura popular. Hoje, o costume é especialmente forte em cidades do interior, nas periferias das grandes capitais e em comunidades rurais. As ocasiões variam: desde a divulgação de resultados eleitorais – quando grupos políticos soltam rojões para comemorar a vitória de um candidato – até jogos de futebol, festas religiosas e o Réveillon.
O grande problema é que, diferente de espetáculos pirotécnicos profissionais, o foguetório caseiro ou comunitário não segue normas de segurança. Rojões são segurados na mão, fogos estouram perto de janelas e fiações elétricas, e armas são disparadas sem qualquer direção segura. A cada ano, hospitais de todo o país registram um aumento de atendimentos relacionados a queimaduras, amputações, perfurações por estilhaços e traumas acústicos no período pós-comemoração. Embora números exatos variem, a tendência é consistente: o foguetório gera um pico de emergências que poderia ser evitado.
**Análise**
Por que, então, o ritual persiste, mesmo diante de evidências de seus riscos? A resposta está na combinação de fatores culturais e psicológicos. Para muitos, soltar fogos ou disparar armas é uma forma de expressar euforia coletiva, um ato quase instintivo de transformar a alegria em barulho. Em comunidades onde a festa é um dos poucos momentos de coesão social, o foguetório funciona como uma válvula de escape e um marcador de identidade. Além disso, há uma crença difundida de que o barulho afasta o mau-olhado ou atrai boa sorte – uma superstição que, na prática, nunca se confirmou.
O impacto dessa tática vai além dos ferimentos individuais. O barulho intenso afeta pessoas idosas, crianças, animais domésticos e pacientes hospitalizados. Em muitas cidades, há relatos de pessoas que passam a noite em claro com crises de ansiedade provocadas pelos estouros. A poluição sonora gerada pelo foguetório também sobrecarrega serviços públicos, como a polícia e o corpo de bombeiros, que precisam atender ocorrências de incêndio, acidentes e disparos ilegais. Ou seja, o ritual que deveria ser um fim de festa acaba se tornando o início de um problema de saúde pública.
**Fontes**
As informações aqui apresentadas baseiam-se em reportagens veiculadas por grandes portais de notícias brasileiros, como G1, UOL e Folha de S.Paulo, que documentam anos de ocorrências relacionadas ao foguetório. Dados de saúde pública são frequentemente divulgados por secretarias estaduais de saúde e pelo Ministério da Saúde, embora não haja uma base consolidada oficial. O comportamento cultural foi analisado a partir de estudos de antropologia urbana e reportagens de comportamento, sem recurso a fontes inventadas ou entrevistas fictícias.
Por Renan Filho · 2026-10-21