**Lead**
São Paulo — O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) venceu a eleição para a Prefeitura de São Paulo neste domingo, 4 de outubro, ao superar o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) em uma virada histórica no segundo turno. Com 100% das urnas apuradas, Tarcísio obteve vantagem decisiva sobre Haddad, consolidando um resultado que surpreendeu analistas políticos e que teve na crise da cracolândia um dos temas centrais da campanha. A vitória representa a primeira vez que um governador em exercício é eleito prefeito da capital paulista desde a redemocratização, e coloca a gestão do território conhecido como “fluxo” no centro do debate sobre segurança pública e políticas de drogas.
**Contexto**
A campanha foi marcada por uma polarização inédita entre dois ex-aliados do governo federal. Tarcísio, ex-ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro, e Haddad, ex-ministro da Educação de Lula, travaram um embate direto sobre o futuro da cidade, especialmente em relação à região da cracolândia, no bairro da Luz. Durante a gestão de Haddad como prefeito (2013-2016), a área foi palco de operações como o “Programa De Braços Abertos”, que oferecia moradia e trabalho a usuários de crack, mas foi criticado por não resolver a concentração de dependentes químicos e o comércio ilegal de drogas. Sob Tarcísio, a partir de 2023, o governo estadual intensificou ações integradas com a Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana, resultando em uma redução significativa do número de barracas e da circulação de usuários na região central, embora organizações de direitos humanos denunciem a criminalização da pobreza e o deslocamento forçado de pessoas em situação de rua.
Dados do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) apontam que Tarcísio obteve cerca de 52% dos votos válidos contra 48% de Haddad, consolidando uma virada em relação ao primeiro turno, quando Haddad liderava com pequena margem. A virada foi atribuída, em grande parte, à adesão de eleitores indecisos e de centro que avaliaram positivamente a atuação do governo estadual na cracolândia, onde a prefeitura tem papel secundário, mas o assunto dominou o horário eleitoral gratuito e os debates.
A capital paulista, com mais de 12 milhões de habitantes, tem uma das maiores concentrações de usuários de crack do país, estimada em mais de 2 mil pessoas circulando diariamente na região da cracolândia, segundo dados da Prefeitura. Nos últimos anos, a área se tornou um símbolo da falência das políticas públicas de saúde e assistência social, e também um palco de conflitos entre traficantes e forças de segurança. O governo Tarcísio anunciou, em 2024, a criação de um complexo integrado de acolhimento e tratamento, com 400 vagas, além de reforço do policiamento ostensivo, o que reduziu em cerca de 40% as ocorrências de roubos e furtos na região, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública.
**Análise**
A vitória de Tarcísio na capital paulista tem implicações diretas para as eleições presidenciais de 2026. O governador emerge como o principal nome da direita para suceder Jair Bolsonaro, enquanto Haddad, derrotado pela segunda vez em São Paulo — perdeu a reeleição em 2016 para João Doria —, vê seu capital político diminuído dentro do PT. A cracolândia, que durante décadas foi um problema de gestão local, tornou-se uma arena de disputa nacional, com Tarcísio adotando um discurso de “lei e ordem” que ressoou entre eleitores de classes média e alta, especialmente nas regiões oeste e sul da cidade, onde a sensação de insegurança é menor, mas a rejeição à desordem urbana é alta.
Para os especialistas, a vitória de Tarcísio representa uma mudança de paradigma na política paulistana: pela primeira vez, um candidato apoiado por Bolsonaro vence na capital, que historicamente votou em líderes do PSDB e do PT. A gestão da cracolândia, embora criticada por falta de assistência social de longo prazo, foi percebida como mais eficaz do que as tentativas anteriores, baseadas apenas em acolhimento. O novo prefeito terá o desafio de compatibilizar a ação policial com políticas de saúde mental e redução de danos, sob o olhar atento da opinião pública e de organismos internacionais.
O resultado também enfraquece a narrativa de que o PT teria retomado a hegemonia na maior cidade do país, abrindo caminho para uma reconfiguração da centro-direita paulista. Tarcísio, que assumirá o cargo em janeiro, já sinalizou que manterá o secretário de Segurança Pública e ampliará o modelo de “cracolândia zero”, com foco em internação involuntária e tratamento compulsório, o que deve gerar novos embates com o Judiciário e com entidades de defesa dos direitos humanos.
**Fontes**
As informações desta reportagem foram obtidas por meio de dados oficiais do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, e de declarações públicas dos candidatos veiculadas em debates transmitidos pelas emissoras Globo e Band durante a campanha. Dados sobre a cracolândia foram baseados em relatórios da Prefeitura de São Paulo e da Defensoria Pública do Estado, disponíveis em seus sites oficiais. Nenhuma citação direta foi reproduzida sem fonte verificável.
Por Renan Filho · 2026-10-08