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Tarcísio celebra fim da cracolândia enquanto cadastro de dependentes de alta complexidade dobra no centro de SP: o custo do conserto

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

O governador de São Paulo comemora a desocupação da região conhecida como cracolândia, mas números oficiais revelam que o número de dependentes químicos em tratamento de alta complexidade no centro da capital dobrou em um ano. Para a FORTIS, a política de saúde pública precisa ser repensada com urgência, sob pena de trocar um problema visível por outro, mais caro e invisível.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, usou suas redes sociais para exaltar o que chamou de “fim da cracolândia” na região da Luz, no centro da capital paulista. Em publicação no X, antigo Twitter, o mandatário afirmou que a ação integrada entre as polícias Civil e Militar, a Guarda Civil Metropolitana e a assistência social devolveu a segurança e a dignidade à região. “A cracolândia acabou”, escreveu, em tom de vitória, sem citar números ou estudos que comprovem a afirmação.

No entanto, dados oficiais do Sistema Único de Saúde (SUS) obtidos via Lei de Acesso à Informação e compilados pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo contam outra história. O registro de dependentes químicos em tratamento de alta complexidade — que envolve internação, desintoxicação e acompanhamento intensivo — dobrou no centro da cidade entre o primeiro semestre de 2025 e o mesmo período de 2026. São 1.240 pacientes cadastrados, contra 620 no ano anterior, um salto de exatos 100%.

Enquanto o governador comemora a dispersão física do fluxo de usuários, os leitos especializados do centro vivem um colapso silencioso. A fila de espera para internação em clínicas conveniadas ao SUS saltou de 3 dias para 21 dias no mesmo intervalo, segundo levantamento da Coordenadoria de Saúde da Região Oeste, que abrange parte da área central. Ou seja: o problema não desapareceu — foi empurrado para dentro do sistema de saúde, que agora arca com os custos de uma crise humanitária que antes era visível nas ruas.

Para a FORTIS, a leitura é clara: a política de saúde pública estadual, ao focar na desocupação policial sem uma contrapartida robusta de tratamento e geração de renda, transfere o ônus para o contribuinte e para o doente. O livre mercado, que sempre defendeu a eficiência de soluções descentralizadas, vê ali um caso clássico de intervenção estatal que trata o sintoma e ignora a causa. A dependência química é uma doença que exige tratamento médico, psicológico e social — e não apenas a remoção de barracas e a prisão de traficantes.

Por que isso importa? Porque o centro de São Paulo é o coração econômico da maior metrópole do país. A desocupação da cracolândia, se bem-sucedida, poderia destravar investimentos imobiliários e comerciais bilionários, gerando empregos e renda. Mas, sem resolver a demanda reprimida por tratamento, o que se vê é a migração do fluxo para ruas adjacentes — como já ocorreu em gestões anteriores — e o aumento dos custos assistenciais, que serão pagos com impostos cada vez mais altos.

A análise da FORTIS vai além: a dobradinha entre ação policial e internação compulsória, defendida por parte do governo, é um atalho perigoso para o autoritarismo sanitário. O Estado não pode substituir a vontade do indivíduo em se tratar, mas também não pode se furtar a oferecer alternativas viáveis. A solução liberal passaria por parcerias público-privadas com clínicas de reabilitação, incentivos fiscais para empresas que contratarem dependentes em recuperação e criação de cooperativas de trabalho para os ex-moradores de rua.

O contraponto, é claro, existe. A prefeitura de São Paulo, em nota, afirma que o aumento nos registros de alta complexidade é reflexo de um novo sistema de notificação, mais eficiente, e não de um agravamento da crise. A Secretaria de Estado da Saúde, por sua vez, diz que ampliou em 40% o número de leitos na região e que a fila é “dinâmica”. Ainda assim, os números não mentem: o custo por paciente internado em regime de alta complexidade subiu 35% em doze meses, o que pressiona ainda mais um orçamento já deficitário.

A verdade é que a cracolândia nunca foi apenas um problema de segurança pública. Ela é a ponta de um iceberg de falhas estruturais que incluem a falta de políticas de prevenção, a ausência de vagas em escolas técnicas para jovens em situação de vulnerabilidade e a crise habitacional que empurra milhares para as ruas. Enquanto o governo comemorar a remoção de barracas sem apresentar um plano integrado de reinserção social, a conta vai continuar chegando — e cara — para o cidadão de bem que paga impostos.

A FORTIS não defende a manutenção do caos, muito pelo contrário. Defende que o Estado cumpra seu papel de garantir a ordem, mas que o faça com inteligência, usando dados e métricas de resultado. Se o número de dependentes em tratamento dobrou, que se comemore o acesso ao serviço, mas que se cobre a cura. O que não se pode aceitar é que o fim da cracolândia seja apenas o começo de uma nova crise, agora dentro dos hospitais, com o dinheiro do contribuinte.

O centro de SP é um termômetro do país. Se a política pública não gerar autonomia econômica para os dependentes — via empregos formais e microcrédito —, o ciclo vicioso se repetirá em outras cidades. A experiência internacional, como em cidades dos EUA e da Europa, mostra que a redução de danos aliada a programas de geração de renda tem mais eficácia do que a simples repressão. Mas isso exige coragem para enfrentar tabus ideológicos e abraçar soluções pragmáticas.

O governo de Tarcísio, que se diz liberal na economia, deveria aplicar o mesmo receituário na área social: menos Estado provedor e mais Estado articulador. Isso significa desburocratizar a abertura de clínicas, permitir que a iniciativa privada invista em tratamentos com reembolso de planos de saúde e criar um ambiente de negócios que absorva a mão de obra egressa do vício. Enquanto isso não acontece, a dobradinha entre polícia e hospital continuará sendo uma âncora que afunda o contribuinte.

Em resumo, a exaltação do governador é prematura. O fim da cracolândia pode ser real nos vídeos, mas o problema de saúde pública segue vivo, e cada vez mais caro. A FORTIS seguirá de olho nos próximos capítulos, cobrando transparência e eficiência na aplicação dos recursos. Afinal, liberalismo sem responsabilidade fiscal e social é apenas uma palavra bonita no papel.

**1. O aumento no número de dependentes em alta complexidade no centro de SP significa que a política de Tarcísio falhou?** Não necessariamente. O aumento pode indicar que mais pessoas estão sendo alcançadas pelo sistema de saúde, o que seria positivo. No entanto, o salto de 100% em um ano, aliado ao crescimento da fila de espera, sugere que a demanda reprimida não foi atendida. A falha, se houver, está na falta de planejamento de médio e longo prazo. O governo precisa explicar se os novos leitos acompanharam o crescimento da procura e qual é a taxa de sucesso do tratamento.

**2. Qual seria a alternativa liberal para lidar com a cracolândia sem parecer insensível?** A alternativa liberal passa por três frentes: prevenção, tratamento e reinserção econômica. Na prática, isso significa investir em campanhas educativas de combate ao uso de drogas desde a infância, financiar clínicas privadas via subsídios públicos (vouchers) para que o dependente escolha onde se tratar, e criar incentivos fiscais para empresas que contratarem ex-usuários. O Estado não deve ser o único provedor, mas o regulador de um ecossistema que envolva famílias, igrejas, ONGs e o setor privado. A lógica é transformar o dependente em cidadão produtivo, e não em paciente perpétuo.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.