**Lead**
Em meio ao aquecimento da campanha para as eleições presidenciais de 2026, o brasilianista Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e pesquisador sênior do think tank alemão DGAP, afirmou ao FORTIS NEWS que tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) geram “pouquíssimo entusiasmo” entre os eleitores brasileiros. A declaração reflete um diagnóstico sombrio sobre o estado da política nacional: a ausência de candidatos com apelo popular capaz de mobilizar as massas, fenômeno que Stuenkel atribui a um cansaço geral com a polarização e à falta de renovação programática.
**Contexto**
A avaliação do brasilianista ocorre em um momento de indefinição sobre as candidaturas para o Palácio do Planalto. Lula, que já governou o país por dois mandatos (2003–2010) e voltou ao poder em 2023, enfrenta uma queda consistente em seus índices de aprovação. Pesquisas de opinião pública realizadas por institutos como Datafolha e Quaest ao longo de 2025 mostraram que a avaliação positiva do governo oscila entre 30% e 35%, enquanto a rejeição ao petista ultrapassa 50% em alguns recortes regionais.
Do outro lado do espectro, Flávio Bolsonaro — filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e atualmente senador pelo Rio de Janeiro — desponta como o nome mais forte da direita nas pesquisas de intenção de voto, mas com um teto eleitoral limitado. Para Stuenkel, o fenômeno Bolsonaro parece ter atingido seu auge em 2018, quando o patriarca foi eleito com 57 milhões de votos. “O sobrenome Bolsonaro ainda carrega um núcleo duro de apoio, mas Flávio não tem o carisma do pai e enfrenta um escrutínio jurídico pesado”, explica o professor.
A análise de Stuenkel também destaca que a falta de entusiasmo não é um fenômeno exclusivo do Brasil. Em democracias consolidadas, como Estados Unidos e França, há uma tendência crescente de rejeição às elites políticas tradicionais. No entanto, o caso brasileiro é agravado pela fragmentação partidária e pelo descrédito das instituições. “O eleitor brasileiro está cansado de promessas não cumpridas, de escândalos de corrupção e de um discurso político que não dialoga com os problemas reais do dia a dia”, afirma Stuenkel.
**Análise**
A apatia em relação a Lula e Flávio Bolsonaro pode ser explicada por dois fatores centrais: a saturação da polarização e a percepção de que ambos representam continuidades, e não rupturas. Lula, aos 80 anos, carrega o peso de um legado de 20 anos na vida política nacional, enquanto Flávio é visto como um herdeiro que não construiu uma identidade própria. Para Stuenkel, esse cenário abre espaço para candidatos de terceira via, mas não há, até o momento, nenhum nome com musculatura competitiva.
Outro ponto crítico é o impacto das investigações judiciais. Flávio Bolsonaro é alvo de apurações no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e no Ministério Público do Rio de Janeiro relacionadas a supostas movimentações atípicas quando era deputado estadual. Já Lula, embora tenha tido suas condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2021, ainda carrega o estigma dos processos da Lava Jato. “A judicialização da política brasileira cria uma névoa de incerteza. Isso desmobiliza o eleitor, que não sabe em quem confiar”, avalia Stuenkel.
Do ponto de vista econômico, a desaceleração do PIB, o desemprego persistente e a inflação controlada, mas não vencida, corroem a base de sustentação de Lula. Ao mesmo tempo, a direita não consegue apresentar um plano de governo que vá além do antipetismo. “O debate público está empobrecido. É uma briga de narrativas, sem propostas concretas para a reforma tributária, a segurança pública ou a educação”, lamenta o brasilianista.
**Fontes**
As declarações utilizadas neste artigo foram extraídas de uma entrevista concedida por Oliver Stuenkel ao FORTIS NEWS em 1º de outubro de 2026. Stuenkel é professor de Relações Internacionais na FGV e autor de livros como “O Brasil e o Mundo: Uma História das Relações Exteriores Brasileiras”. Dados de aprovação e rejeição mencionados referem-se a pesquisas de opinião pública realizadas pelo Datafolha (agosto/setembro de 2025) e Quaest (setembro de 2025), disponíveis nos respectivos portais dos institutos. Informações sobre as investigações contra Flávio Bolsonaro foram obtidas junto ao Coaf e ao Ministério Público do Rio de Janeiro, conforme reportagens do jornal O Globo (edição de 15 de fevereiro de 2026).
Por Renan Filho · 2026-10-01