**Lead**
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, classificou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições brasileiras como “uma lufada de ar fresco” para a América Latina, destacando especialmente o potencial de retomada das políticas de ciência, tecnologia e preservação ambiental no Brasil. A declaração, feita durante coletiva de imprensa na Cidade do México, foi interpretada por analistas como um sinal de alinhamento estratégico entre duas das maiores economias da região, com implicações diretas para a cooperação científica internacional.
**Contexto**
Sheinbaum, que possui doutorado em Engenharia Energética pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), é uma das poucas líderes mundiais com formação científica ativa. Sua trajetória inclui participação no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e a implementação de políticas de mobilidade sustentável como prefeita da Cidade do México. A avaliação positiva sobre o retorno de Lula ao Planalto ocorre em um momento em que o Brasil, sob o governo anterior, havia reduzido drasticamente investimentos em pesquisa, cortado verbas para universidades federais e enfraquecido órgãos ambientais como o Ibama e o INPE.
O histórico do governo Lula (2003-2010) é marcado por iniciativas como o Programa Ciência sem Fronteiras, a criação de novas unidades de conservação na Amazônia e a liderança brasileira nas negociações do Acordo de Paris. Já a gestão de Jair Bolsonaro (2019-2022) promoveu uma série de desmontes institucionais: o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações caiu para o menor patamar em décadas, enquanto o desmatamento da Amazônia disparou. Nesse cenário, a fala de Sheinbaum reflete a expectativa de que Lula restabeleça parcerias científicas bilaterais, especialmente nas áreas de mudança climática, energias renováveis e biodiversidade.
No México, Sheinbaum também enfrentou desafios similares. Seu governo herdou um sistema científico fragilizado por cortes orçamentários, mas tem buscado reposicionar o país como líder em energias limpas na América Latina. A presidente mexicana já havia manifestado apoio à candidatura de Lula durante a campanha, e a frase “lufada de ar fresco” ecoa um otimismo cauteloso entre cientistas e ambientalistas da região.
**Análise**
A convergência entre Brasil e México sob lideranças com perfil científico pode representar um ponto de inflexão para a cooperação regional em temas como monitoramento da Amazônia, desenvolvimento de vacinas e transição energética. Durante os anos de Bolsonaro, o Brasil se isolou de fóruns multilaterais de ciência, como o próprio IPCC, e perdeu protagonismo em pesquisas antárticas, oceânicas e de biodiversidade. Com Lula, a expectativa é de que o país retome papel ativo em redes latino-americanas de pesquisa, como a Rede de Monitoramento da Mudança Climática e a Aliança para a Sustentabilidade da Amazônia.
Além disso, a experiência de Sheinbaum em engenharia energética pode abrir portas para projetos conjuntos em hidrogênio verde, energia solar e eólica, setores em que tanto o Brasil quanto o México possuem vantagens comparativas. A volta de Lula também sinaliza maior abertura para acordos com organismos científicos internacionais – algo que o governo anterior tratou com desconfiança, especialmente em relação à cooperação com a China e a União Europeia. Em um mundo cada vez mais dependente de soluções baseadas em ciência para enfrentar crises climáticas e sanitárias, a aproximação entre os dois gigantes latino-americanos pode gerar frutos concretos, como a criação de centros binacionais de pesquisa aplicada.
Por outro lado, o cenário não é de euforia. Tanto Lula quanto Sheinbaum enfrentam restrições fiscais, parlamentos fragmentados e oposição de setores que enxergam a agenda científica como secundária diante de demandas imediatas de saúde, educação e emprego. A recuperação dos investimentos em ciência no Brasil dependerá de negociações complexas com o Congresso e da capacidade do novo governo de reverter emendas parlamentares que desviam recursos do fundo setorial de pesquisa. No México, Sheinbaum ainda precisa consolidar o apoio de seu partido, o Morena, para aprovar um orçamento robusto para a recém-criada Secretaria de Ciência, Humanidades, Tecnologia e Inovação.
**Fontes**
Declaração de Claudia Sheinbaum durante coletiva de imprensa na Cidade do México, outubro de 2026. Dados históricos sobre investimentos em ciência no Brasil e no México obtidos de relatórios da Unesco e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Informações sobre cortes orçamentários no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações do Brasil foram baseadas em análises da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O histórico ambiental dos governos Lula e Bolsonaro foi consultado em publicações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e do World Resources Institute.
Por Renan Filho · 2026-10-26