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O Senado do Paraguai dará continuidade, nesta sexta-feira, ao processo de impeachment do presidente Santiago Peña, em uma sessão que promete agitar o cenário político da região. A medida, que avança em meio a denúncias de corrupção e má gestão, já provoca ondas de preocupação no Brasil, maior parceiro comercial e energético do Paraguai. Economistas e analistas acompanham de perto os desdobramentos, temendo que a instabilidade política em Assunção possa afetar desde o fornecimento de energia da usina de Itaipu até os fluxos de investimentos bilaterais.
**Contexto**
Santiago Peña, do Partido Colorado, assumiu a presidência do Paraguai em agosto de 2023, sucedendo Mario Abdo Benítez. Seu mandato foi marcado por promessas de modernização econômica e atração de investimentos estrangeiros, especialmente no agronegócio e na infraestrutura. No entanto, nos últimos meses, o governo enfrentou uma série de acusações de irregularidades em contratos públicos e suposto desvio de recursos, o que levou a Câmara dos Deputados a aprovar a abertura de um processo de impeachment. Agora, cabe ao Senado decidir se o presidente será afastado definitivamente.
A relação entre Paraguai e Brasil é uma das mais estratégicas da América do Sul. O Brasil é o destino de cerca de um terço das exportações paraguaias, com destaque para soja, carne bovina e energia elétrica. A usina hidrelétrica de Itaipu, binacional, é o principal símbolo dessa parceria: o Paraguai vende ao Brasil o excedente de sua cota de energia a preços preferenciais, gerando receitas que representam aproximadamente 10% do orçamento nacional paraguaio. Qualquer turbulência política em Assunção pode colocar em risco a estabilidade desses acordos.
Além disso, o Paraguai integra o Mercosul ao lado de Brasil, Argentina e Uruguai. O bloco vive um momento de negociações comerciais com a União Europeia e a China, e a crise institucional paraguaia pode atrasar ou enfraquecer a posição conjunta. Empresas brasileiras com operações no Paraguai, especialmente nos setores de construção civil, agronegócio e logística, já monitoram o desenrolar do processo.
**Análise**
A continuidade do impeachment de Peña representa um risco direto para a economia brasileira em pelo menos três frentes. A primeira é a energética: o Brasil depende do excedente de Itaipu para complementar sua matriz, especialmente em períodos de seca nas hidrelétricas do Sudeste. Uma crise política que paralise a administração paraguaia pode gerar incertezas sobre a renovação dos contratos de compra de energia, que são renegociados periodicamente. Embora o tratado de Itaipu seja robusto, a instabilidade pode levar a atrasos ou renegociações menos favoráveis.
A segunda frente é o comércio bilateral. O Paraguai é um importante mercado para produtos brasileiros, como máquinas, veículos e fertilizantes. A incerteza política tende a desacelerar a economia paraguaia, reduzindo a demanda por importações. Além disso, o real pode sofrer volatilidade diante do aumento do risco-país na região, afetando exportadores brasileiros que já enfrentam concorrência global.
A terceira frente é a dos investimentos. O Paraguai tem atraído capital estrangeiro graças a incentivos fiscais e mão de obra barata. Empresas brasileiras, como as do setor têxtil e de alimentos, instalaram unidades no país para aproveitar essas vantagens. Um impeachment prolongado ou a substituição do presidente por um governo de transição pode levar a revisões de contratos e à suspensão de novos projetos, impactando o fluxo de capitais e empregos.
Analistas apontam que, mesmo que o impeachment não seja aprovado, o simples fato de o processo avançar já gera um ambiente de incerteza que prejudica o planejamento de longo prazo. O mercado financeiro brasileiro reage com cautela: o risco-Brasil, medido pelo CDS, tende a subir em momentos de crise nos vizinhos, e a bolsa de valores pode sofrer pressão em setores expostos ao Paraguai.
**Fontes**
As informações sobre o andamento do processo de impeachment foram baseadas em reportagens da agência Reuters, do jornal paraguaio ABC Color e do portal de notícias Última Hora. Dados sobre comércio bilateral e energia foram consultados no site do Ministério da Economia do Brasil e na Itaipu Binacional. Análises de impacto econômico foram extraídas de relatórios do Banco Central do Brasil e de instituições como o FMI e o Banco Mundial, sem citação direta de números específicos.
Por Renan Filho · 2026-11-05