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O Senado do Paraguai dará continuidade, nesta sexta-feira, ao processo de impeachment do presidente Santiago Peña, em uma sessão que promete definir os próximos capítulos da crise política no país. A movimentação ocorre em meio a denúncias de supostas irregularidades na gestão de contratos públicos e acusações de obstrução de investigações. Embora o tema seja essencialmente político, o desfecho do processo tem potencial para alterar o equilíbrio de forças no Mercosul e, principalmente, nas relações bilaterais com o Brasil — incluindo acordos que envolvem o setor esportivo, como a construção conjunta de infraestrutura para a Copa do Mundo de 2030, caso a candidatura sul-americana avance.
**Contexto**
Santiago Peña, economista de formação e ex-ministro da Fazenda, assumiu a Presidência do Paraguai em agosto de 2023 com a promessa de modernizar a economia e combater a corrupção. No entanto, já no segundo ano de mandato, sua administração foi abalada por denúncias envolvendo a concessão de obras da usina hidrelétrica de Itaipu Binacional — empreendimento compartilhado com o Brasil — e suspeitas de favorecimento em licitações no setor de transportes. A oposição, liderada por setores do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), apresentou um pedido de impeachment baseado em supostas violações da Lei de Responsabilidade Fiscal e na recusa do presidente em prestar esclarecimentos ao Congresso sobre os contratos.
A Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou a abertura do processo no mês passado, com votos favoráveis de uma coalizão que reúne liberais e dissidentes do Partido Colorado — a mesma legenda de Peña. Agora, o Senado — composto por 45 cadeiras — será o palco decisivo. Para que o impeachment seja aprovado, são necessários os votos de dois terços dos senadores presentes. Pesquisas de opinião locais indicam que a população está dividida: parte apoia a saída de Peña por considerar que a crise de credibilidade prejudica a imagem do país, enquanto outra parte vê a movimentação como um golpe político orquestrado por grupos derrotados nas urnas.
O Paraguai vive um momento de instabilidade raro para os padrões da região. Desde o fim da ditadura de Alfredo Stroessner, em 1989, o país nunca concluiu um processo de impeachment presidencial. O único caso recente foi o de Fernando Lugo, em 2012, que terminou com a destituição do presidente em um rito considerado controverso pela comunidade internacional. Agora, o fantasma daquele episódio ronda novamente Assunção.
**Análise**
O desenrolar do impeachment de Peña não é apenas um assunto de política interna paraguaia. O Brasil, como principal parceiro econômico do Paraguai — responsável por cerca de 30% do comércio exterior do país vizinho —, tem muito a perder ou a ganhar com a estabilidade do governo em Assunção. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve até agora uma posição de cautela, defendendo o respeito ao processo institucional paraguaio, mas nos bastidores o Palácio do Itamaraty monitora cada passo com atenção.
Um dos temas que mais preocupa Brasília é justamente a renegociação do Tratado de Itaipu, que deve ser revisada a partir de 2026. O Paraguai reivindica tarifas mais vantajosas pela venda de energia excedente ao Brasil, e um governo fragilizado politicamente pode tanto ceder rapidamente quanto endurecer a negociação para tentar ganhar capital político interno. Além disso, há a candidatura conjunta de Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile para sediar a Copa do Mundo da Fifa em 2030. O Paraguai seria um dos anfitriões e já iniciou obras de modernização de estádios e aeroportos. Caso a crise se aprofunde, esses investimentos — muitos deles financiados com recursos do Banco de Desenvolvimento da América Latina — podem sofrer atrasos ou até serem suspensos.
Do ponto de vista esportivo, a instabilidade política paraguaia também afeta a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), que tem sua sede em Luque, região metropolitana de Assunção. A entidade já demonstrou preocupação com a segurança e a continuidade dos projetos de infraestrutura que dependem de garantias do governo paraguaio. O processo de impeachment, portanto, transcende a política convencional e toca diretamente em temas de interesse do esporte continental.
**Fontes**
As informações sobre o andamento do processo foram obtidas a partir de notas oficiais da Câmara dos Deputados e do Senado do Paraguai, transmitidas em sessões públicas e repercutidas pela imprensa local, como os jornais ABC Color e Última Hora. Dados sobre a renegociação de Itaipu e as relações bilaterais Brasil-Paraguai foram consultados em comunicados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e em relatórios do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Por Renan Filho · 2026-11-06