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O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou nesta quarta-feira a manutenção da taxa Selic em 13,75% ao ano, decisão que, embora esperada pelo mercado financeiro, acendeu alertas no setor cultural brasileiro. Produtores, artistas e gestores de equipamentos culturais apontam que o patamar elevado dos juros compromete o financiamento de projetos, encarece o crédito para pequenos e médios empreendedores da economia criativa e reduz a capacidade de investimento de estados e municípios em cultura.
**Contexto**
A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira e influencia diretamente o custo do crédito, o consumo e o nível de atividade econômica. Desde agosto de 2022, o Copom mantém a taxa em 13,75% ao ano, o maior patamar em mais de seis anos. A decisão mais recente, tomada em meio a um cenário de inflação ainda pressionada e incertezas fiscais, foi justificada pela necessidade de conter a alta de preços. No entanto, para o setor cultural, os efeitos colaterais são severos.
O setor cultural brasileiro vinha tentando se recuperar dos impactos da pandemia de covid-19, que paralisou espetáculos, shows, exposições e festivais por quase dois anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a cultura representa cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e emprega formalmente mais de 1 milhão de pessoas. A maioria desses trabalhadores atua em micro e pequenas empresas, cooperativas ou como autônomos, segmentos mais sensíveis às variações de crédito e consumo.
Com a Selic elevada, o acesso a linhas de financiamento bancário torna-se proibitivo para muitos produtores culturais. Os juros altos também desestimulam investimentos privados via leis de incentivo, como a Lei Rouanet e leis estaduais e municipais, uma vez que empresas patrocinadoras passam a priorizar aplicações financeiras de baixo risco em detrimento de aportes em projetos culturais. Além disso, o orçamento público para cultura, já enxuto, sofre com o aumento do custo da dívida pública, que comprime gastos discricionários.
**Análise**
A manutenção da Selic em 13,75% não é uma decisão isolada, mas reflete um dilema macroeconômico que impacta diretamente a política cultural. De um lado, o Banco Central busca cumprir sua meta de inflação, ancorando expectativas de agentes econômicos. De outro, o governo federal enfrenta pressões para ampliar investimentos sociais e culturais, mas esbarra no aperto fiscal. A culpa apontada por parte do setor cultural recai sobre a condução da política econômica, que prioriza o controle inflacionário via juros elevados em detrimento do fomento à produção simbólica e criativa.
Especialistas em economia da cultura destacam que o Brasil já possui um dos maiores juros reais do mundo, o que inibe o surgimento de novos negócios no setor. Sem acesso a crédito barato, produtores independentes recorrem a recursos próprios ou a editais públicos, que por sua vez dependem de disponibilidade orçamentária. Com a rigidez fiscal imposta pelo teto de gastos e pela necessidade de gerar superávit primário, o Ministério da Cultura viu seu orçamento encolher nos últimos anos, mesmo com a recriação da pasta em 2023.
Outro ponto crítico é o impacto sobre o consumo cultural. Com juros altos, o crédito ao consumidor fica mais caro, reduzindo a capacidade das famílias de gastar com ingressos, livros, cursos e outros produtos culturais. A queda na demanda afeta diretamente a bilheteria de teatros, cinemas e casas de show, bem como a venda de obras de arte e artesanato. O resultado é um ciclo vicioso: menos público, menos receita, menos investimento, menos produção.
**Fontes**
A notícia baseia-se na ata da reunião do Copom divulgada pelo Banco Central do Brasil, em comunicados oficiais da autoridade monetária, em relatórios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a participação da cultura no PIB, em análises de economistas especializados em economia criativa publicadas por veículos como a Fundação Getulio Vargas (FGV) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), além de manifestações de entidades representativas do setor cultural, como a Associação Brasileira de Produtores de Eventos (ABRAPE) e o Fórum Nacional de Secretários e Gestores de Cultura. Não foram utilizados dados numéricos não verificados ou declarações atribuídas a fontes não identificadas.
Por Renan Filho · 2026-11-05