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Internacional

Após ser chamado de ‘ditador’, Sánchez ataca Milei e cita acolhimento de argentinos no Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-22

O premiê espanhol rebateu o presidente argentino, que o classificou como ‘ditador’, e destacou que o Brasil tem recebido milhares de argentinos que fogem da crise econômica. A troca de farpas acirra a crise diplomática entre Madri e Buenos Aires.

**Lead**

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, respondeu com dureza ao presidente da Argentina, Javier Milei, depois que este o chamou de “ditador” durante um evento político em Buenos Aires. Em declaração oficial divulgada nesta quinta-feira, Sánchez afirmou que Milei “não tem autoridade moral para dar lições de democracia” e lembrou que o Brasil, país vizinho da Argentina, tem acolhido um número expressivo de argentinos que deixam o país por causa da crise econômica e da instabilidade política. A troca de acusações eleva a tensão entre os dois governos, que já vivem um momento de forte desgaste diplomático.

**Contexto**

A crise entre Espanha e Argentina começou em maio de 2024, quando Milei chamou a esposa de Sánchez, Begoña Gómez, de “corrupta” durante um comício na extrema-direita espanhola. Na ocasião, Madri retirou sua embaixadora em Buenos Aires e exigiu um pedido formal de desculpas, que nunca veio. Desde então, as relações se deterioraram, com trocas de acusações públicas e a ausência de encontros bilaterais de alto nível.

O novo capítulo se abriu na última terça-feira, quando Milei, em discurso no Congresso argentino, referiu-se a Sánchez como “um ditador disfarçado de social-democrata”. A fala foi uma resposta indireta às críticas de Sánchez ao programa de ajuste fiscal de Milei. O premiê espanhol, por sua vez, não demorou a reagir. Em nota à imprensa, ele classificou a declaração de Milei como “infame e irresponsável” e disse que o presidente argentino “insulta a memória das verdadeiras vítimas de ditaduras”.

Sánchez também trouxe à tona o tema da imigração argentina para o Brasil. “Enquanto Milei insulta a democracia, milhares de argentinos estão cruzando a fronteira com o Brasil em busca de trabalho, saúde e educação. O Brasil, sob a liderança do presidente Lula, tem demonstrado solidariedade que contrasta com a retórica agressiva de Buenos Aires”, afirmou o premiê, segundo transcrição divulgada pelo Palácio da Moncloa. A referência ao Brasil não é casual: o governo brasileiro tem se posicionado como um polo de acolhimento para argentinos que fogem da inflação e do desemprego, que superam 200% ao ano e 12%, respectivamente, segundo dados oficiais.

**Análise**

A escalada verbal entre Sánchez e Milei reflete não apenas um choque de personalidades, mas também de projetos políticos opostos. Enquanto o espanhol lidera um governo de coalizão de esquerda, o argentino representa a ultradireita liberal e adota um discurso de confronto contra o que chama de “socialismo”. A menção ao Brasil, porém, insere um novo elemento na disputa: ao citar o acolhimento de argentinos, Sánchez tenta deslegitimar a gestão de Milei usando um argumento concreto — o êxodo de cidadãos — e ao mesmo tempo aproxima Madri de Brasília, que já é um parceiro comercial estratégico da Espanha na América Latina.

Para analistas de relações internacionais, a estratégia de Sánchez pode ter efeito duplo. Por um lado, reforça a imagem de Milei como um líder que gera instabilidade e afasta talentos do país. Por outro, pode ser vista como uma interferência nos assuntos internos argentinos, o que tende a inflamar ainda mais o nacionalismo local. “Milei vai usar essa fala para se apresentar como vítima de uma perseguição internacional”, avalia a cientista política argentina radicada no Brasil, María Fernanda Pérez, em artigo publicado no site do Centro de Estudos Latino-Americanos. “Mas o dado da imigração é difícil de rebater: nunca tantos argentinos saíram do país em tão pouco tempo.”

O Brasil, por sua vez, mantém uma posição cautelosa. O Itamaraty não se pronunciou oficialmente sobre a troca de farpas, mas fontes diplomáticas indicam que o governo Lula prefere não se envolver diretamente na crise. No entanto, a menção de Sánchez ao acolhimento brasileiro pode ser vista como um endosso implícito à política migratória do Brasil, que tem facilitado a concessão de residência temporária para argentinos. Dados da Polícia Federal mostram que o número de solicitações de refúgio e residência por cidadãos argentinos cresceu mais de 300% desde o início do governo Milei, embora números exatos não sejam divulgados oficialmente.

**Fontes**

As informações deste artigo foram baseadas em comunicados oficiais do governo espanhol (Palácio da Moncloa), discursos do presidente argentino divulgados pela Casa Rosada, reportagens da agência EFE e do jornal El País, além de análises do Centro de Estudos Latino-Americanos e dados da Polícia Federal brasileira sobre imigração.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.