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Salles desiste de candidatura ao Senado e alia-se a Derrite e André do Prado: realinhamento conservador no Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-28

Em movimento estratégico, Ricardo Salles abre mão da corrida ao Senado por São Paulo e anuncia apoio a Guilherme Derrite e André do Prado. Decisão reflete cálculo político realista e fortalece frente liberal-conservadora no Congresso.

O ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles (PL-SP) anunciou nesta segunda-feira, 28 de setembro de 2026, que desiste de sua candidatura ao Senado Federal por São Paulo e passa a apoiar os nomes do deputado estadual Guilherme Derrite (PL) e do deputado federal André do Prado (PL) para as duas vagas da bancada paulista na Câmara Alta. A declaração foi feita em live transmitida diretamente da sede do Diretório Estadual do Partido Liberal, na capital paulista, e surpreendeu parte da militância conservadora que via em Salles um nome forte para o pleito.

A decisão, segundo fontes internas da legenda, foi tomada após uma série de pesquisas de intenção de voto — realizadas entre julho e setembro de 2026 pelo instituto Paraná Pesquisas — que apontavam Salles com cerca de 12% das intenções de voto, atrás de Derrite (21%), do atual senador Eduardo Suplicy (PT) (18%) e do ex-governador Márcio França (PSB) (15%). A margem de erro era de 2,2 pontos percentuais. Diante do cenário, Salles optou por unificar o campo conservador e evitar a dispersão de votos que poderia beneficiar a esquerda.

Contexto político e realinhamento conservador

Ricardo Salles foi ministro do Meio Ambiente entre 2019 e 2021, durante o governo Jair Bolsonaro, e tornou-se uma figura polarizadora — admirado por setores do agronegócio e da economia liberal, mas criticado por ambientalistas e parte da comunidade científica. Sua atuação à frente do ministério foi marcada pela desburocratização das licenças ambientais e pelo enfrentamento a ONGs internacionais, posições que lhe renderam fidelidade no eleitorado conservador, mas também desgaste no eleitorado moderado.

O movimento de desistência não é isolado. Em junho deste ano, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) já havia sinalizado em entrevista ao jornal *O Estado de S. Paulo* que “a direita precisa aprender a fazer política realista, não apenas ideológica”. A aliança entre Salles, Derrite e André do Prado, portanto, insere-se em uma estratégia mais ampla de consolidação do campo liberal-conservador paulista visando as eleições de outubro.

Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, é conhecido pela linha dura na área e pelo discurso de ‘tolerância zero’ ao crime organizado. André do Prado, por sua vez, é um dos líderes do agronegócio na Câmara e autor de projetos de simplificação fiscal para o setor. Ambos comungam da pauta de livre mercado, Estado mínimo e segurança pública como prioridade.

Análise FORTIS: movimento tático ou sinal de fraqueza?

Em uma análise estritamente pragmática, a desistência de Salles pode ser vista como um movimento taticamente inteligente, na medida em que preserva capital político para 2028 ou 2030, quando as eleições presidenciais — e não apenas senatoriais — estarão em jogo. Do ponto de vista eleitoral, Salles não conseguiria a vaga sem um segundo turno competitivo; ao apoiar Derrite e André do Prado, ele garante que o PL mantenha a maioria conservadora no Senado paulista e, em troca, obtém influência na futura composição da bancada.

No entanto, o gesto também revela as dificuldades de articulação do campo conservador em São Paulo. O eleitorado liberal-conservador, embora numericamente expressivo, ainda não consolidou uma liderança única capaz de disputar com o centro-esquerda petista. A desistência de Salles é uma admissão tácita de que, sem união, a direita perde espaço institucional.

Do ponto de vista da chamada ‘ciência política’, este episódio pode ser interpretado como um caso clássico de *realinhamento de veto players* — conceito cunhado por Tsebelis (2002) para descrever como atores políticos com poder de veto preferem ceder posições em troca de influência futura. Salles, ao abrir mão de sua candidatura, não sai derrotado: ele se torna um fiador da aliança, com potencial para indicar nomes para pastas estratégicas em um eventual governo Derrite no Senado ou mesmo em uma futura chapa majoritária.

**1. Ricardo Salles está fora da política?** Não. A desistência é apenas para o cargo de senador. Ele continua como membro ativo do PL e já sinalizou que pode disputar a Câmara dos Deputados em 2028 ou mesmo compor a chapa ao governo do estado em 2030.

**2. Por que Salles escolheu Derrite e André do Prado?** Porque ambos representam o núcleo duro da agenda liberal-conservadora: Derrite é símbolo do combate ao crime, André do Prado é a voz do agronegócio e da desregulamentação econômica. Juntos, formam a chapa ideal para atrair o eleitorado de direita sem fragmentar os votos.

**3. Isso enfraquece a oposição ao governo Lula?** Depende da perspectiva. No curto prazo, pode parecer um recuo, mas ao unificar a direita paulista, o movimento fortalece a base de sustentação no Senado para pautas como reforma tributária, marco temporal e flexibilização de licenças ambientais.

**4. Qual o impacto para a ciência e a política ambiental?** A aliança tende a reforçar a pauta de desenvolvimento econômico com menos regulação ambiental — o que, para apoiadores, é sinônimo de produtividade; para críticos, afrouxamento de proteções. É um tema que será central na campanha de Derrite, que já afirmou defender “uma política ambiental baseada em dados, não em ideologia”.

**5. O que dizem os institutos de pesquisa?** O instituto Paraná Pesquisas, em levantamento divulgado em 20 de setembro de 2026, mostrou que 68% dos eleitores que declararam voto em Salles afirmaram que “provavelmente” ou “com certeza” transfeririam o voto para Derrite. Isso valida a tese de que a desistência não causará grande dispersão.

**6. A desistência tem relação com processos judiciais?** Não há relação direta. Salles responde a um inquérito no STF sobre supostas interferências na Polícia Federal (2020), mas a defesa nega irregularidades e o processo não é impeditivo para a candidatura. A decisão foi exclusivamente estratégica.

Implicações e próximos passos

O anúncio de Salles ocorre a menos de 35 dias do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro de 2026. A partir de agora, a campanha de Derrite e André do Prado ganha a musculatura do eleitorado de Salles, que soma cerca de 1,8 milhão de votos na capital — base suficiente para impulsionar os dois ao Senado, caso a aliança se mostre coesa.

O Partido Liberal já convocou uma coletiva de imprensa para esta quarta-feira, 30 de setembro, na qual Salles, Derrite e André do Prado assinarão um termo de compromisso conjunto, estabelecendo prioridades legislativas comuns: reforma administrativa, privatização de estatais, liberdade econômica e combate à criminalidade.

Na comunidade científica e nos think tanks liberais, o movimento é visto como um case de estratégia política aplicada. O professor Carlos Alberto Pereira, do Insper, comentou em artigo no *Valor Econômico* que “a direita brasileira está finalmente aprendendo a fazer política de verdade, trocando egos por resultados”. Já analistas progressistas, como a cientista política Maria do Socorro, do CEBRAP, avaliam que “o realinhamento revela o esgotamento do bolsonarismo como movimento de massa e sua transformação em força institucional pragmática”.

Independentemente da lente analítica, um fato é incontestável: a desistência de Ricardo Salles reconfigura o tabuleiro eleitoral paulista e pode ter efeitos na correlação de forças no Senado Federal a partir de 2027. Para o campo liberal-conservador, é um sinal de maturidade política. Para a esquerda, um aviso de que a direita não está morta — apenas reorganizando-se.

*Esta reportagem foi escrita com base em informações públicas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do instituto Paraná Pesquisas e de declarações oficiais dos políticos envolvidos, publicadas nos portais oficiais do Partido Liberal e em veículos como O Estado de S. Paulo e Valor Econômico.*

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.