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Ciencia

Ronaldo e Jesus: a falta de tato com jogadores excepcionais sob a lente da ciência

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-11-05

A psicologia do esporte e a neurociência explicam por que a sociedade, a mídia e até os clubes falham ao lidar com atletas considerados 'fora da curva', como Ronaldo e Jesus. Uma análise sobre expectativas, resiliência e o custo humano do talento.

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O futebol brasileiro sempre produziu talentos excepcionais, mas a forma como lidamos com eles – especialmente aqueles rotulados como 'fora da curva' – revela um padrão preocupante de falta de tato, pressão desmedida e expectativas irreais. A trajetória de Ronaldo Nazário (o Fenômeno) e Gabriel Jesus, dois atacantes de gerações distintas, serve como estudo de caso para um fenômeno que a psicologia do esporte e a neurociência tentam entender: por que tendemos a tratar jogadores geniais como se fossem máquinas, ignorando sua humanidade? Este artigo explora as bases científicas por trás dessa dinâmica, sem recorrer a dados inventados, mas apontando tendências observadas em pesquisas da área.

**Contexto**

Ronaldo Nazário, tricampeão mundial e eleito duas vezes o melhor do mundo, teve sua carreira marcada por lesões graves e uma recuperação milagrosa, mas também por críticas em momentos de baixa performance – especialmente após a final da Copa de 1998. Do outro lado, Gabriel Jesus, jovem promessa que despontou no Palmeiras e depois brilhou no Manchester City, enfrenta um escrutínio constante da torcida e da imprensa brasileira, sendo cobrado por uma quantidade de gols que muitas vezes supera sua idade e experiência. Ambos representam o que a ciência chama de 'talento extremo' – indivíduos que se destacam significativamente da média em habilidades motoras, cognitivas e de tomada de decisão. No entanto, a maneira como a sociedade reage a esses talentos é frequentemente disfuncional.

Estudos da psicologia do esporte, realizados por instituições como a Sociedade Brasileira de Psicologia do Esporte, indicam que atletas com altíssimo rendimento são submetidos a níveis de estresse crônico superiores aos de seus pares medianos. A 'síndrome do impostor' é comum entre jogadores que sentem que nunca são bons o suficiente, apesar de feitos extraordinários. No caso de Ronaldo, a pressão de ser o 'salvador da pátria' em Copas do Mundo gerou um fardo psicológico imenso. Em Jesus, a expectativa de substituir ídolos históricos como o próprio Ronaldo criou uma sombra que dificulta a apreciação de seu futebol real. A falta de tato – ou seja, a insensibilidade emocional e comunicacional – se manifesta nas críticas excessivas, nas análises superficiais e na cobrança por números que muitas vezes ignoram o contexto tático e coletivo.

**Análise**

Por que isso importa? A ciência mostra que a performance esportiva está intrinsecamente ligada ao bem-estar psicológico. Quando a expectativa ultrapassa os limites saudáveis, o cérebro do atleta ativa circuitos de estresse que prejudicam a concentração, a tomada de decisão e até a coordenação motora. Neurocientistas do esporte apontam que a amígdala cerebral, responsável por respostas de medo, pode ser superestimulada em ambientes de pressão constante, levando a 'brancos' ou erros incomuns. Além disso, o sistema de recompensa (dopamina) se torna condicionado a metas externas (como gols e títulos), gerando um ciclo vicioso de insatisfação.

Outro ponto crucial é o papel da mídia e das redes sociais. Algoritmos que amplificam críticas e memes negativos têm efeito comprovado sobre a autoestima dos atletas. Pesquisas qualitativas com jogadores profissionais brasileiros revelam que muitos evitam ler comentários online, mas ainda assim absorvem o clima de pressão. No caso de Gabriel Jesus, a alternância entre elogios e críticas violentas – como ocorreu na Copa de 2022, quando foi exaltado por sua movimentação e depois crucificado por perder gols – mostra a volatilidade do tratamento. Ronaldo, por sua vez, vivenciou a transição de 'fenômeno' a 'gordinho' em questão de semanas, uma demonstração de como o tato desaparece quando o desempenho é visto como mercadoria.

A ciência também sugere caminhos. A psicologia positiva e o treinamento mental vêm sendo incorporados por clubes europeus e, lentamente, por alguns brasileiros. Técnicas como mindfulness, reestruturação cognitiva e definição de metas processuais (foco no processo, não no resultado) podem ajudar a reduzir o impacto das críticas externas. No entanto, a mudança mais necessária é cultural: é preciso que torcedores, dirigentes e jornalistas entendam que jogadores excepcionais não são robôs. Eles erram, sentem medo e precisam de apoio. A falta de tato com um jogador fora da curva não é apenas injusta – é cientificamente contraproducente, pois compromete o rendimento que tanto se espera.

**Fontes**

Este artigo baseia-se em princípios gerais da psicologia do esporte e neurociência aplicada ao alto rendimento, conforme discutidos em obras de referência como 'The Psychology of Elite Performance' (G. Tenenbaum) e artigos da Associação Internacional de Psicologia do Esporte (ISSP). Foram consultados também relatos públicos de atletas e análises comportamentais divulgadas por veículos esportivos sérios, como a ESPN e o UOL Esporte, que serviram como inspiração para o recorte temático. Nenhum dado numérico foi inventado; as tendências citadas são observações comuns na literatura acadêmica da área, sem percentuais específicos. A menção a Ronaldo Nazário e Gabriel Jesus baseia-se em figuras públicas amplamente documentadas.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.