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Em uma análise que ecoa entre setores do campo progressista brasileiro, o cientista político Rodrigo Perez Oliveira defende que a continuidade do projeto político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva depende de uma estratégia clara: tirar a luta política do terreno da guerra cultural. Segundo Oliveira, a polarização em torno de pautas identitárias, religiosas e de costumes tem desgastado a base de apoio do governo e afastado eleitores moderados, comprometendo as chances de reeleição ou de sucessão em 2026. A declaração foi feita durante um seminário sobre estratégias eleitorais realizado em Brasília, na última semana.
**Contexto**
A chamada “guerra cultural” tornou-se um dos fenômenos políticos mais marcantes do Brasil nos últimos anos. Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), temas como ideologia de gênero, ensino domiciliar, armamento civil e a suposta “ameaça comunista” foram sistematicamente utilizados para mobilizar a base conservadora e desgastar adversários. Lula, ao vencer as eleições de 2022 por uma margem estreita, herdou um país profundamente dividido, onde questões culturais frequentemente sobrepujam debates sobre políticas públicas concretas.
Desde então, o governo Lula tem oscilado entre tentativas de pacificação e respostas a provocações da oposição. A nomeação de ministros com perfil mais progressista, como a ministra dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, e a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, gerou reações intensas nas redes sociais e no Congresso. Ao mesmo tempo, a base governista enfrenta dificuldades para aprovar pautas econômicas, como a reforma tributária, em meio a embates sobre aborto, liberdade de expressão e regulação de plataformas digitais.
Rodrigo Perez Oliveira, que tem se dedicado ao estudo da comunicação política e do comportamento eleitoral, argumenta que a estratégia de Bolsonaro de transformar cada eleição em um plebiscito sobre valores morais foi eficaz para consolidar seu eleitorado, mas também criou uma armadilha para a esquerda. “Se Lula continuar respondendo no mesmo campo simbólico, estará sempre em desvantagem, porque a direita domina a narrativa cultural. A saída é recolocar a economia, o emprego e a redução das desigualdades como eixos centrais do debate”, afirmou o analista.
**Análise**
A tese de Oliveira encontra respaldo em pesquisas de opinião que indicam cansaço do eleitorado com a polarização exacerbada. Embora não existam números exatos disponíveis, a tendência observada em levantamentos recentes é de que uma parcela significativa dos brasileiros deseja que os políticos priorizem temas como saúde, educação e inflação, em detrimento de batalhas culturais. Para o cientista político, ignorar esse desejo pode custar caro ao governo.
Outro ponto levantado por Oliveira é a necessidade de o PT e seus aliados construírem pontes com setores que não se identificam plenamente com a agenda progressista, como evangélicos e classes médias conservadoras. “Não se trata de abandonar pautas históricas, mas de comunicá-las de forma que não pareçam ameaças à identidade do outro. A vitória de Lula em 2022 foi possível porque ele conseguiu, em parte, falar de fome e de emprego. Esse discurso precisa ser retomado com força”, explicou.
A análise ganha relevância em um momento em que o governo enfrenta desafios no Congresso e nas ruas. A oposição, ainda sob influência bolsonarista, aposta em novas guerras culturais — como a discussão sobre o marco temporal para terras indígenas e a criminalização do aborto em casos de estupro — para desgastar a imagem do presidente. Se Lula cair na armadilha de debater cada um desses temas no calor da emoção, corre o risco de fragmentar ainda mais sua base e perder o centro político.
Por outro lado, especialistas alertam que simplesmente ignorar as pautas culturais pode ser interpretado como omissão. O desafio, segundo Oliveira, é encontrar um equilíbrio: defender direitos sem transformar cada questão em um campo de batalha existencial. “A política é feita de prioridades. Neste momento, a prioridade deve ser reconstruir a economia e a confiança nas instituições. O resto virá depois, com diálogo e paciência”, concluiu.
**Fontes**
As informações deste artigo baseiam-se na exposição do cientista político Rodrigo Perez Oliveira durante seminário realizado em Brasília, em outubro de 2026, e em análises de conjuntura política publicadas por veículos como Folha de S.Paulo, O Globo e UOL. Dados contextuais sobre as eleições de 2022 e o governo Lula são de domínio público.
Por Renan Filho · 2026-10-07