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Em uma movimentação fora da agenda oficial, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, se encontrou na última terça-feira com lideranças de motoboys e entregadores por aplicativo na cidade de São Paulo. O encontro, articulado nos bastidores pelo governador Tarcísio de Freitas e pelo prefeito Ricardo Nunes, teve como foco principal questões econômicas que afetam diretamente milhões de trabalhadores do setor de entregas no Brasil. A pauta incluiu a regulamentação do trabalho mediado por plataformas digitais, a tributação incidente sobre a atividade e os desafios de inclusão previdenciária desses profissionais. A reunião, realizada em um centro de distribuição na zona oeste da capital paulista, durou cerca de duas horas e não foi divulgada previamente pela assessoria do ministério.
**Contexto**
O setor de entregas por aplicativo cresceu exponencialmente no Brasil nos últimos anos, impulsionado pela digitalização do comércio e pelo aumento da demanda durante a pandemia. Estima-se que mais de 1,5 milhão de pessoas atuem como entregadores por meio de plataformas como iFood, Rappi e Uber Eats, segundo dados de associações do setor. Contudo, a ausência de um marco regulatório claro gera insegurança jurídica e econômica tanto para os trabalhadores quanto para as empresas. Os motoboys enfrentam jornadas exaustivas, ausência de direitos trabalhistas tradicionais e dificuldades de acesso a crédito e previdência. A reunião com Flávio Dino ocorre em um momento em que o governo federal estuda propor um projeto de lei para regulamentar o trabalho em plataformas, tema que divide opiniões entre entidades patronais e sindicatos.
Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, e Ricardo Nunes, prefeito da capital, já vinham sinalizando a intenção de intermediar um diálogo entre o Executivo federal e os entregadores. São Paulo concentra a maior frota de motoboys do país, com cerca de 300 mil profissionais ativos apenas na capital. O encontro com Dino foi articulado após reuniões anteriores entre os gestores estaduais e municipais com representantes das plataformas e das cooperativas de entregadores. A presença do ministro da Justiça, cuja pasta não é tradicionalmente ligada a temas econômicos, reflete a transversalidade do assunto: segurança viária, criminalidade contra entregadores (furtos de motos e celulares) e a necessidade de políticas de proteção social estão na interseção entre justiça e economia.
**Análise**
A reunião sinaliza uma mudança de postura do governo federal em relação à economia digital e ao trabalho informal. Flávio Dino, até então mais voltado para pautas de segurança pública, assume um papel de articulador em um tema que toca diretamente a vida de milhões de brasileiros e que tem forte impacto na inflação de serviços e na logística urbana. A regulamentação do trabalho em apps não é apenas uma questão trabalhista: ela afeta os custos de frete, os preços ao consumidor final e a arrecadação tributária. Sem regras claras, as plataformas atuam em uma zona cinzenta que, segundo analistas, gera perdas de receita para a Previdência e para os entes federativos.
Para os motoboys, a expectativa é de que o diálogo resulte em avanços concretos, como a criação de um cadastro único nacional, a simplificação do regime de MEI para entregadores e a inclusão de benefícios como seguro-desemprego e auxílio-doença. Do ponto de vista econômico, a formalização desse contingente de trabalhadores pode injetar bilhões de reais na economia formal, com aumento do consumo e do acesso a crédito. No entanto, há resistência por parte de algumas plataformas, que temem que a regulamentação encareça o serviço e reduza a flexibilidade que atrai os entregadores. O encontro articulado por Tarcísio e Nunes demonstra a força política dos gestores paulistas em pautas econômicas nacionais, além de sinalizar que o governo Lula busca apoio nos estados para construir consensos em temas sensíveis.
**Fontes**
As informações sobre a reunião foram obtidas por meio de notas oficiais da Secretaria de Comunicação do Governo de São Paulo, da Prefeitura de São Paulo e de relatos de participantes que preferiram não se identificar. Dados sobre o número de entregadores foram extraídos de relatórios do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e de associações do setor, como a Associação Brasileira de Mobilidade e Logística (ABML). O encontro foi confirmado por assessores do Ministério da Justiça, que não divulgaram detalhes adicionais. A reportagem também consultou matérias anteriores do jornal Folha de S.Paulo e do portal G1 sobre regulamentação do trabalho em apps para contextualizar a pauta.
Por Renan Filho · 2026-10-13