**Lead**
A reta final do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 é marcada por um movimento claro de alinhamento artístico: de um lado, artistas do segmento sertanejo e do agronejo declararam apoio público ao candidato Flávio Bolsonaro (PL); do outro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reúne uma coalizão de artistas de diferentes gêneros — do samba ao rock, do forró ao rap — em uma série de eventos intitulada “Brasil de Todos os Ritmos”. A disputa, que já mobilizava os bastidores políticos, agora invade os palcos, as redes sociais e os grandes centros urbanos.
**Contexto**
Historicamente, o eleitorado do agronegócio e da música sertaneja tem forte identificação com pautas conservadoras e com a defesa da propriedade privada, do armamento civil e da liberdade econômica. Nos últimos anos, artistas como Chitãozinho & Xororó, Bruno & Marrone e nomes do chamado “feminejo” — como Maiara & Maraisa — já haviam sinalizado simpatia pelo bolsonarismo. Em 2026, esse apoio se tornou explícito: uma série de vídeos e posts nas redes sociais, publicados nos últimos dias, mostra duplas e cantores sertanejos gravando mensagens de apoio a Flávio Bolsonaro, com frases como “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e “Força, capitão”.
Do outro lado, a campanha de Lula aposta na capilaridade de artistas populares para furar a bolha. O ex-presidente já conta com o apoio declarado de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Anitta, Ludmilla, Seu Jorge, Emicida, Pabllo Vittar e Zeca Pagodinho. A novidade na reta final é a adesão de artistas do forró e do brega, como Alceu Valença e Elba Ramalho, além de bandas de rock como Nando Reis e Titãs. No último fim de semana, um grande ato em São Paulo reuniu cerca de 15 mil pessoas no Vale do Anhangabaú, com apresentações de vários desses artistas.
**Análise**
A divisão no meio artístico reflete, em escala ampliada, a polarização que domina o eleitorado brasileiro. O apoio explícito de sertanejos a Flávio Bolsonaro não é apenas simbólico: ele tem impacto direto em regiões do Centro-Oeste, interior de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, onde o agronegócio é motor econômico e cultural. Para a campanha bolsonarista, essa adesão funciona como um selo de autenticidade junto ao eleitor rural e conservador, que vê nos artistas sertanejos representantes legítimos de seu estilo de vida.
Já a estratégia de Lula de reunir artistas de múltiplos gêneros busca construir a imagem de um “Brasil plural”, capaz de unir diferentes classes sociais, regiões e estilos musicais em torno de um projeto de reconstrução nacional. A presença de artistas negros, LGBTQIA+ e de periferias é central para essa narrativa, que tenta contrastar com o que a campanha petista classifica como “discurso de exclusão” do adversário.
No entanto, é importante notar que o apoio artístico não se traduz automaticamente em votos. Pesquisas qualitativas indicam que, embora a música sertaneja tenha grande penetração nacional, o eleitorado jovem e urbano — que consome rap, funk e pop — tende a ser mais influenciado por artistas como Anitta e Emicida. A reta final, portanto, é uma batalha de narrativas: de um lado, o “Brasil do campo e da tradição”; do outro, o “Brasil da diversidade e da inclusão”.
**Fontes**
As informações sobre os apoios artísticos foram obtidas a partir de publicações oficiais nas redes sociais dos artistas mencionados, de notas divulgadas pelas assessorias de campanha de Flávio Bolsonaro e Lula, e de reportagens veiculadas por veículos como G1, UOL e Folha de S.Paulo. Os dados sobre o ato em São Paulo foram confirmados pela organização do evento e pela Polícia Militar.
Por Renan Filho · 2026-10-21