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Cultura

Quem sou eu para falar de carreira? A crise de autoridade e o excesso de conselhos no Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-28

Em meio ao boom de coaches, influenciadores e palestras motivacionais, a pergunta que ecoa nas redes e nos corredores corporativos é: quem tem legitimidade para orientar trajetórias profissionais? Uma reflexão cultural sobre autoconhecimento, superficialidade e a busca por sentido no trabalho.

**Lead**

“Quem sou eu para falar de carreira?” – a pergunta, que poderia soar como um mantra de humildade, tornou-se um dos dilemas culturais mais incômodos do Brasil contemporâneo. Em um país onde o mercado de aconselhamento profissional explodiu na última década, com milhares de pessoas se autointitulando especialistas em LinkedIn, YouTube e Instagram, a linha entre experiência legítima e oportunismo nunca foi tão tênue. A questão não é apenas individual: reflete uma crise mais ampla de autoridade, na qual a democratização do conhecimento convive com a banalização do discurso sobre sucesso, propósito e realização.

**Contexto**

O fenômeno não surgiu do nada. A partir dos anos 2010, o Brasil viveu uma onda de empreendedorismo e “cultura do self-made man”, impulsionada por crises econômicas, desemprego estrutural e a promessa de que qualquer um poderia “virar a chave” e construir a própria carreira. Livros de autoajuda, cursos online e palestras motivacionais tornaram-se produtos de massa. Nesse ecossistema, figuras como coaches de carreira, mentores de LinkedIn e youtubers de “desenvolvimento pessoal” ganharam milhões de seguidores, muitas vezes sem formação acadêmica ou trajetória profissional verificável.

Ao mesmo tempo, a pandemia de covid-19 acelerou a digitalização do trabalho e a busca por sentido. O burnout, a síndrome do impostor e a ansiedade profissional passaram a ser temas recorrentes. Em resposta, surgiu uma enxurrada de conteúdos que prometem respostas rápidas: “5 passos para conseguir o emprego dos sonhos”, “como ser promovido em 30 dias”, “a fórmula do networking infalível”. O problema é que, por trás dessas promessas, muitas vezes não há lastro. Quem são essas pessoas que falam sobre carreira? O que as credencia? A experiência pessoal basta?

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em seu livro “A Sociedade do Cansaço”, já alertava para a transformação do sujeito em “empreendedor de si mesmo”, que explora a própria subjetividade como capital. No Brasil, essa lógica encontrou terreno fértil. O psicanalista Christian Dunker, em diversas análises públicas, aponta que o discurso do “propósito” e da “vocação” muitas vezes encobre uma pressão social por produtividade e sucesso, gerando sofrimento psíquico. A pergunta “quem sou eu para falar de carreira?” revela, portanto, uma tensão entre a necessidade de orientação e a desconfiança em relação a quem a oferece.

**Análise**

Por que essa questão importa? Porque toca em um nervo exposto da cultura brasileira: a relação entre trabalho e identidade. Em um país com altas taxas de informalidade e desigualdade, o discurso sobre carreira muitas vezes ignora as condições materiais de quem não tem acesso a redes de contato, educação de qualidade ou capital social. Quando um influenciador digital, formado em uma universidade de elite, ensina “como negociar seu salário” para uma plateia de jovens periféricos, a distância entre a teoria e a prática é abissal. A autoridade para falar de carreira não pode ser reduzida a uma biografia de sucesso; ela exige escuta, contexto e, acima de tudo, honestidade sobre os privilégios envolvidos.

Além disso, a crise de autoridade no campo profissional reflete uma transformação mais ampla na sociedade do conhecimento. Antes, a palavra de especialistas – psicólogos do trabalho, consultores de RH, acadêmicos – tinha peso institucional. Hoje, qualquer pessoa com um celular e uma história de superação pode se tornar uma referência. Isso não é necessariamente negativo: a democratização do discurso permitiu que vozes antes marginalizadas ganhassem espaço. No entanto, a ausência de filtros e a lógica algorítmica das redes favorecem o sensacionalismo e a simplificação. O resultado é uma cacofonia de conselhos contraditórios, que mais confundem do que orientam.

Outro ponto crucial é o impacto na saúde mental. A pressão por “encontrar seu propósito” e “construir uma carreira dos sonhos” pode ser paralisante. Muitos jovens brasileiros relatam sentir-se perdidos diante de tantas opções e opiniões. A pergunta “quem sou eu para falar de carreira?” também pode ser lida como um sintoma de esgotamento: a sensação de que ninguém – nem mesmo os supostos especialistas – tem respostas definitivas. Em vez de buscar um guru, talvez o caminho seja cultivar uma relação mais honesta com o trabalho, aceitando incertezas e reconhecendo que a carreira é, antes de tudo, uma construção coletiva, influenciada por fatores econômicos, sociais e culturais que vão além do esforço individual.

**Fontes**

- Byung-Chul Han, “A Sociedade do Cansaço” (Editora Vozes, 2015). - Christian Dunker, psicanalista e professor da USP, em artigos e entrevistas sobre o discurso do empreendedorismo e a cultura do trabalho no Brasil. - Relatórios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre mercado de trabalho e informalidade (dados gerais, sem números específicos citados). - Artigos de opinião publicados na Folha de S.Paulo e no jornal O Globo sobre o fenômeno dos coaches e influenciadores de carreira (referência genérica, sem citação direta). - Observações de campo de profissionais de RH e psicólogos organizacionais, coletadas em debates públicos sobre a síndrome do impostor e a busca por propósito.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.