**Opinião – Ana Paula Vescovi: Quem paga a conta do adiamento?**
O debate sobre o futuro da ciência no Brasil ganhou contornos dramáticos nos últimos anos. Entre cortes orçamentários, emendas parlamentares e promessas de retomada, uma pergunta incômoda persiste: quem realmente paga a conta do adiamento sistemático dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento? A economista e ex-secretária do Tesouro Nacional Ana Paula Vescovi, em análise publicada originalmente no jornal *O Globo* em setembro de 2026, traz uma perspectiva que incomoda tanto a esquerda quanto a direita estatista: o custo não é apenas fiscal, mas também moral e competitivo — e a fatura, invariavelmente, chega ao cidadão.
**Contexto**
O Brasil enfrenta um paradoxo. Enquanto o governo federal anuncia programas como o Nova Indústria Brasil e tenta reativar o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), os indicadores mostram um país que perdeu o bonde da quarta revolução industrial. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que o Brasil investe cerca de 1,2% do PIB em P&D, bem abaixo da média de 2,4% dos países desenvolvidos e muito aquém de nações como Coreia do Sul (4,6%) e Israel (5,4%). A conta, diz Vescovi, é simples: cada real não investido hoje em ciência básica e aplicada se multiplica em custos futuros de importação de tecnologia, dependência externa e perda de produtividade.
**Análise Fortis**
A visão de Ana Paula Vescovi é coerente com o diagnóstico liberal-conservador: o problema não é falta de recursos, mas a má alocação deles. O orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para 2026, aprovado pelo Congresso, é de R$ 18,7 bilhões. Contudo, mais de 60% desse montante está vinculado a despesas obrigatórias e a subsídios a empresas estatais, como a Finep e a Embrapa, que, embora relevantes, operam com baixa eficiência relativa. Enquanto isso, startups inovadoras brasileiras enfrentam uma carga tributária que chega a 34% sobre o faturamento — o dobro da média dos países do Brics.
A ex-secretária aponta que a conta do adiamento é paga de três formas diretas ao cidadão:
1. **Perda de produtividade**: Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2025 mostrou que, se o Brasil tivesse mantido o ritmo de investimento em ciência do início dos anos 2000, o PIB per capita seria hoje 12% maior. A diferença equivale a aproximadamente R$ 2.500 por brasileiro ao ano.
2. **Fuga de cérebros e dependência tecnológica**: Dados da Capes indicam que, entre 2018 e 2025, mais de 12 mil doutores brasileiros emigraram para centros de pesquisa nos Estados Unidos e na Europa. O custo de formá-los — estimado em R$ 1,2 milhão por pesquisador — é suportado pelos impostos dos brasileiros, mas os benefícios são colhidos por economias estrangeiras.
3. **Custo da inação climática e energética**: O Brasil possui a matriz energética mais limpa entre as grandes economias, mas a falta de investimento em inovação em baterias, hidrogênio verde e inteligência artificial aplicada à agricultura já custa bilhões em subsídios a combustíveis fósseis e perdas na safra. Um relatório do Banco Mundial de 2024 calculou que o Brasil poderia reduzir em 40% as emissões de carbono até 2030 com investimentos anuais de R$ 14 bilhões em ciência verde — valor hoje pulverizado em emendas parlamentares de baixo impacto.
O **FORTIS NEWS** defende que a saída não está em simplesmente aumentar o orçamento público. A história recente mostra que, sem reformas estruturais, mais dinheiro significa mais desperdício. O exemplo do FNDCT é emblemático: em 2023, o governo bloqueou R$ 4,2 bilhões do fundo, gerando protestos de reitores e cientistas. Mas, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a liberação integral dos recursos em 2024, parte significativa foi usada para cobrir despesas correntes de universidades e não para novos projetos inovadores. A transparência, portanto, é o primeiro passo.
**P: O governo federal está certo em priorizar o ajuste fiscal em vez da ciência?** R: Não se trata de escolher entre ajuste fiscal e ciência. O ajuste fiscal é condição para que o Estado possa investir de forma sustentável. O problema é que o governo gasta mal: em 2025, o Brasil gastou R$ 200 bilhões em subsídios e renúncias fiscais para setores de baixa inovação, enquanto a ciência recebeu menos de R$ 20 bilhões. A conta do adiamento é paga pelo contribuinte, que financia ineficiência.
**P: Como o setor privado pode ajudar?** R: O Brasil precisa urgentemente de um marco legal que incentive o investimento privado em P&D, com segurança jurídica e simplificação tributária. Atualmente, a Lei do Bem e a Lei de Informática geram créditos fiscais, mas o processo é burocrático e incerto. Empresas inovadoras migram para Singapura ou Portugal, onde o ambiente é mais previsível.
**P: O adiamento científico é um problema da esquerda ou da direita?** R: É um problema do Estado brasileiro. Tanto governos petistas quanto tucanos aumentaram o gasto público sem melhorar a eficácia. O que falta é uma política de Estado de longo prazo, desvinculada de ciclos eleitorais e baseada em incentivos de mercado, concorrência e mérito.
**Conclusão**
A análise de Ana Paula Vescovi é um alerta necessário. O Brasil continua adiando a decisão de se tornar uma economia baseada em conhecimento. Enquanto isso, a conta do atraso é paga pelo cidadão comum — na forma de juros altos, salários estagnados e serviços públicos de baixa qualidade. A verdade, como sempre, custa caro. Mas o preço do autoengano é ainda maior.
*Renan Filho – editor de Opinião do FORTIS NEWS*
Por Renan Filho · 2026-09-27