**Lead**
O deputado Flávio lançou uma pergunta direta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante sessão no Congresso Nacional nesta quinta-feira: “Quem governa o Brasil: você ou o Google?” A indagação ocorre em um momento de acirrado debate sobre o poder das empresas de tecnologia na vida pública e privada dos cidadãos, e sobre os limites da atuação estatal frente a gigantes digitais. A fala foi interpretada como um recado ao chefe do Executivo sobre a necessidade de fortalecer a soberania digital e a segurança das informações nacionais diante de decisões unilaterais de plataformas que afetam desde a moderação de conteúdo até a coleta de dados pessoais.
**Contexto**
A fala de Flávio insere-se em um contexto de crescente tensão entre governos e grandes empresas de tecnologia. Nos últimos anos, o Brasil testemunhou episódios em que plataformas como Google, Meta e Twitter/X removeram conteúdos ou ajustaram algoritmos sem consulta prévia ao Estado, gerando questionamentos sobre a capacidade de controle e regulação por parte das autoridades. Em 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a suspensão de aplicativos de mensagens que descumpriam ordens judiciais, e o debate sobre o Marco Civil da Internet e o PL 2630 (que trata do combate às fake news) voltou ao centro das discussões.
Especialistas em segurança digital apontam que a dependência do Brasil de infraestrutura e serviços gerenciados por empresas estrangeiras representa um risco estratégico. A concentração de dados de mais de 200 milhões de brasileiros em servidores localizados fora do país, muitas vezes em jurisdições com leis de privacidade diferentes, expõe vulnerabilidades que podem ser exploradas não apenas por criminosos, mas também por outros Estados. O governo Lula, por sua vez, tem defendido a criação de uma Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) fortalecida e a implementação de políticas de cibersegurança, mas críticos argumentam que as ações ainda são insuficientes para contrabalançar o poder das big techs.
**Análise**
A pergunta de Flávio transcende o embate político tradicional e toca em um ponto nevrálgico da geopolítica contemporânea: a soberania digital. Quando uma plataforma decide unilateralmente banir um perfil, remover um discurso ou alterar termos de serviço, ela está exercendo um poder que antes era prerrogativa exclusiva do Estado. No Brasil, casos como a suspensão de canais de órgãos oficiais em redes sociais por suposta violação de diretrizes, sem possibilidade de recurso imediato, acenderam alertas sobre a assimetria de poder. Para especialistas, a questão central não é apenas regulatória, mas de segurança nacional: dados sensíveis sobre saúde, finanças, infraestrutura crítica e até movimentações políticas estão nas mãos de corporações que respondem a acionistas e a leis de outros países, muitas vezes com interesses conflitantes com os do Brasil.
Além disso, a dependência de ferramentas como os sistemas de busca e os aplicativos de mensagens para a comunicação governamental e para a prestação de serviços públicos coloca o país em posição de vulnerabilidade. Se, por exemplo, o Google decidir modificar seu algoritmo de forma a desfavorecer canais oficiais ou a restringir o acesso a informações governamentais, o impacto sobre a transparência e a democracia seria imenso. Flávio, ao fazer sua provocação, ecoa uma preocupação que já levou a União Europeia a aprovar o Digital Markets Act e o Digital Services Act, e que motivou a China a construir sua própria infraestrutura digital independente. O Brasil, nesse cenário, precisa decidir se continuará dependente ou se buscará alternativas como nuvens soberanas, inteligência artificial nacional e regulações que garantam que as big techs atuem como parceiras, não como governantes de facto.
**Fontes**
A informação sobre a fala de Flávio foi registrada em notas oficiais da Câmara dos Deputados e repercutida por veículos como Agência Câmara e Agência Brasil. Os debates sobre soberania digital e segurança de dados baseiam-se em artigos publicados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e em análises do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Dados sobre dependência tecnológica foram extraídos de relatórios da União Internacional de Telecomunicações (UIT) e de publicações do Fórum Econômico Mundial.
Por Renan Filho · 2026-10-24